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Por Política em Debate I Brasília, Em 05/07/2025, 20h:05
O brasileiro bobo, mal informado ou deslumbrado, acha que tudo nos Estados Unidos e na Europa é melhor do que no Brasil. Que eles são isso, são aquilo, blá blá blá: A tal síndrome de vira latas. Aquela pessoa que adora falar mal da sua própria terra, ao invés de lutar para que ela melhore.
Quero te propor uma reflexão hoje. Já imaginou um jornalista do Washington Post, acostumado aos hospitais dos EUA, ser atendido no Brasil sem pagar um centavo? Foi o que aconteceu no Rio de Janeiro. O correspondente foi socorrido num hospital público e saiu elogiando o Sistema Único de Saúde (SUS), impressionado pelo ótimo atendimento e por não ter recebido nenhuma fatura para pagar. E se você ou a sua família são usuários do SUS, sabe que isso é verdade.
SUS: parto gratuito X EUA: preço de falência
Vamos a um exemplo simples: um parto.
No Brasil, pelo SUS, o atendimento desde o pré-natal até a alta hospitalar é totalmente gratuito para a população. Já nos Estados Unidos, um parto normal pode custar entre US$ 30.000 (aproximadamente R$ 162.000) e US$ 50.000 (cerca de R$ 270.000) para quem não possui seguro público (Medicaid) ou privado. Caso haja necessidade de internação em UTI neonatal, esses custos aumentam significativamente. Mesmo com o Medicaid, programa público destinado a pessoas de baixa renda, o custo médio varia entre US$ 8.000 (R$ 43.200) e US$ 18.000 (R$ 97.200), e a cobertura é limitada a quem atende critérios específicos de renda, deixando milhões de americanos sem acesso a esse benefício.
Cortes de US$ 1 trilhão no Medicaid e Medicare
Recentemente, o Congresso americano aprovou a chamada “One Big Beautiful Bill”, inciativa do presidente Trump, que reduz US$ 1 trilhão em programas sociais, incluindo Medicaid e Medicare, nos próximos 10 anos. O CBO (órgão de orçamento do Congresso) estima que entre 11,8 e 17 milhões de pessoas perderão cobertura de saúde devido a esses cortes. Em outras palavras, milhões de cidadãos americanos passarão a depender de caridade ou morrerão sem assistência.
SUS: modelo de saúde pública universal
Mesmo com todas as suas filas, o SUS é considerado um dos maiores sistemas de saúde pública universal do mundo. É inspirado em modelos como o britânico (NHS) e o canadense, mas com maior cobertura populacional, e serve de referência para outros países em desenvolvimento.
Na América Latina, o Brasil é o único país que possui um sistema público universal e gratuito em toda a sua extensão populacional, o SUS. Outros países da região, como Argentina, Chile e Uruguai, têm sistemas mistos, com parte da população atendida por sistemas públicos e outra parte por seguros privados ou previdência social
Na Rússia, por exemplo, existe um sistema similar: o OMS (Sistema Obrigatório de Seguro Médico), que oferece atendimento gratuito ou subsidiado, financiado por impostos e contribuições compulsórias dos empregadores.
A universalidade e gratuidade do SUS brasileiro ainda se destacam como conquista constitucional. Está no artigo 196 da Constituição Federal, que define a saúde como direito de todos e dever do Estado. No governo Bolsonaro, o ministro da fazenda Paulo Guedes tinha por uma das metas confiscatórias do pouco que tem os mais pobres, privatizar o SUS, que seria substituído por “vales de atendimento” quando necessário. Imagine como seria se a sua esposa fosse fazer um parto. Você acha que funcionaria? Que seria de graça? Não. Não e não. Seria pago como nos Estados Unidos de Trump e companhia
Falta dinheiro para a saúde, sobra para bancos
Agora, vamos aos números que poucos comentam:
- Dotação orçamentária do SUS em 2025: R$ 196 bilhões. O valor de R$ 245 bilhões previsto no Orçamento de 2025 para “despesas com a saúde pública” refere-se ao conjunto das despesas federais destinadas à saúde pública, que inclui o financiamento do SUS, mas não se limita exclusivamente ao SUS.
- Emendas parlamentares impositivas: R$ 53 bilhões (cerca de 27% do orçamento do SUS).
- Pagamento de juros da dívida pública em 2025: O pagamento de juros da dívida pública em 2025 é estimado em R$ 815 bilhões , ou até R$ 995 bilhões, segundo cálculos da Moody’s
Em resumo, gastamos mais de 5 vezes o orçamento do SUS apenas para pagar juros ao sistema financeiro. E ainda dizem que “não há dinheiro” para saúde e educação.
Perguntas…
- Você prefere ter atendimento zero na hora do aperto ou pagar US$ 30.000 por um parto?
- Quer viver num país onde milhões são abandonados por falta de assistência de saúde?
- Ou prefere lutar pelo SUS, que apesar de subfinanciado, é modelo mundial de inclusão social?
Esse episódio do jornalista americano não esconde que o SUS tem problemas crônicos de financiamento, mas salva vidas todos os dias sem escolher quem pode pagar.
No país mais rico do mundo (PIB = US$ 30 trilhões, mas com dívida pública de US$ 36 trilhões, que vai chegar a US$ 41 trilhões, com o “pacote fiscal de Trump” , isto é, tecnicamente quebrado), o direito à saúde gratuita não existe como aqui. Lá, quem não tem dinheiro, morre — simples assim.
No Brasil tudo seria melhor se nossos gananciosos parlamentares não drenassem bilhões em emendas, e se o sistema financeiro não abocanhasse quase um trilhão ao ano só em juros. Dinheiro que poderia mais que dobrar o orçamento da saúde, da educação, da segurança alimentar, mas que some na ciranda da dívida.
O SUS deve ser defendido e fortalecido, não desmontado para alimentar planos de saúde privados nem modelos neoliberais que transformam saúde em mercadoria.

