A “caça às bruxas” no Irã. Mais de 700 presos por espionagem à favor de Israel em 12 dias.
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Por Política em Debate I Brasília, Em 25/06/2025, 19h48
Você achou que a guerra era só com mísseis? Pois bem. Não é novidade que regimes sob ataque externo endurecem suas ações internas. O que talvez surpreenda é a velocidade, a escala e a aceitação popular que o atual governo iraniano está tendo para prender supostos traidores, espiões e — talvez, nesse pacote — qualquer um que ouse discordar? É uma hipótese, mas plausível diante da gravidade extrema do que aconteceu. Na verdade, uma oportunidade para os que estão no poder.
Nos últimos 12 dias, mais de 700 pessoas foram presas sob acusação de colaborar com Israel. Isso mesmo: setecentas. O número é estarrecedor. A acusação? Espionagem. Mas aqui, no Política em Debate, a gente sabe ler além da manchete.
Quando a caça aos espiões vira caça aos dissidentes
Claro que espiões existem. O Mossad não brinca em serviço. Israel está de olho em cada míssil, em cada cientista, em cada infraestrutura sensível do Irã. Mas sejamos honestos: 700 espiões? Em menos de duas semanas? Ou estamos diante da maior operação de contraespionagem da história recente — ou essa lista inclui muito mais do que apenas “agentes inimigos”.
A verdade é que, com o Irã sob ataque direto de Israel e dos EUA, a opinião pública se fechou em torno dos aiatolás. O regime, antes alvo de críticas internas (justificadas ou não), agora é visto como a última trincheira contra o imperialismo ocidental. E nesse tipo de clima, o espaço para oposição — seja liberal, reformista ou progressista — simplesmente desaparece.
O regime endurece. O povo consente?
Sim. Porque em momentos de guerra, segurança vira prioridade absoluta. A liberdade vira “luxo” que poucos ousam exigir. O medo, a raiva e o nacionalismo dão carta branca para que o regime prenda, silencie e “investigue” qualquer um que não esteja completamente alinhado.
As redes sociais iranianas fervem com denúncias de detenções arbitrárias. Mas, ao mesmo tempo, há um sentimento de “é isso mesmo” por parte de grande parte da população. A narrativa do “inimigo infiltrado” cola. Ainda mais quando os inimigos reais — com nomes, sobrenomes e tanques — estão literalmente bombardeando o país.
E a oposição iraniana no exílio?
Silêncio. Ou perplexidade. Porque muitos dos que criticavam o regime agora se veem em uma posição desconfortável: não conseguem defender os ataques estrangeiros — e tampouco podem apoiar abertamente o endurecimento interno. O resultado é o descrédito. Muitos exilados, que um dia foram porta-vozes da “liberdade no Irã”, hoje soam mais próximos do Departamento de Estado americano do que da realidade do povo persa.
E o Ocidente?
Hipocrisia em estado bruto. Os mesmos governos que ignoram a repressão de aliados como Arábia Saudita ou Egito, agora gritam “liberdade” quando o Irã prende supostos espiões. Esquecem que foram eles — EUA e Israel — que lançaram a primeira bomba. Que interromperam negociações. Que transformaram o Irã em alvo militar, diplomático e cibernético.
Agora se espantam porque o regime aperta o cerco?
A guerra abre espaço para o autoritarismo
O Irã está em estado de guerra não-declarada. Isso não justifica a repressão, mas a explica. Regimes acuados fazem exatamente isso: controlam, caçam, prendem, silenciam. E o mais assustador é perceber que, quando o inimigo externo é real e visível, o povo muitas vezes aceita — e até aplaude.
Você pode não gostar dos aiatolás. Mas se a sua crítica ao Irã for maior do que a sua crítica ao imperialismo que o bombardeia, talvez seja hora de rever seus conceitos.


