O verdadeiro eixo do mal agora visto são os Estados Unidos e Israel
Política em Debate é uma mídia independente. Sem lado. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.

Por Política em Debate I Brasília, Em 22/06/2025, 18h58
O domingo foi catastrófico para Donald Trump — e, por extensão, para os Estados Unidos. O que deveria ter sido um ataque devastador das instalações nucleares iranianas terminou em fracasso, caos diplomático e isolamento internacional.
O bombardeio orquestrado por Trump e Netanyahu falhou em seu objetivo central: destruir a central nuclear subterrânea de Fordow, que junto com a central nuclear subterrânea de Natanz, atacada por Israel, formam, ao que se sabe, as duas principais instalações de enriquecimento de urânio do Irã, que usa a tecnologia de ultra centrifugas em seu processo de enriquecimento, da mesma forma que o Brasil em seu programa de enriquecimento e produção de combustível nuclear.
Fracasso estratégico, vergonha internacional
O que foi anunciado como uma ação precisa revelou-se inútil. O complexo de Fordow segue operacional, como apontaram tanto a imprensa internacional quanto o ex-presidente russo Dmitry Medvedev, que declarou:
“A infraestrutura crítica do ciclo nuclear no Irã sofreu pouco ou nenhum dano.”
“O enriquecimento e até mesmo a possível produção de armas nucleares continuam.”
A operação que deveria ser espetacular, com os bombardeiros B-2 americanos destruindo completamente o complexo de Fordow não apenas fracassou, como expôs a fragilidade da estratégia de Trump, que preferiu agir unilateralmente com Israel, sem o respaldo do Conselho de Segurança ou mesmo de seus aliados tradicionais.
Nós tinhamos adiantado em nosso último artigo que uma instalação subterrânea sensível, bem projetada, pode ser construída prevendo um possível ataque de uma bomba ou projétil cinético, e o local escolhido ter características geológicas, como solos graníticos, favoráveis à dissipação da maior parte da quantidade de movimento (energia) associada ao projétil quando do impacto, seguido de penetração no solo; além do design da própria instalação, não horizontal, mas vertical em forma de sessões separadas, projetadas para minimizar danos em caso de uma sessão ser atingida.
O Irã se move, a diplomacia se reorganiza
Além de nesse domingo (22) o Irã continuar com os ataques de mísseis contra Israel, ele reagiu com velocidade. O ministro das Relações Exteriores, Saeed Araghchi, anunciou visita a Moscou para uma reunião com Vladimir Putin. O objetivo: alinhar uma resposta conjunta à agressão americana.
A China também se posicionou com veemência:
“As ações dos EUA violam os propósitos e princípios da Carta da ONU e o direito internacional.”
A condenação não partiu apenas de potências rivais. O chanceler iraniano deixou claro:
“Estávamos em negociação com os EUA quando Israel explodiu a diplomacia. Depois com a UE, e os EUA mais uma vez sabotaram tudo. Como podemos ‘voltar’ à mesa se nunca saímos?”
Ormuz: a bomba prestes a explodir
O Parlamento iraniano aprovou, por unanimidade, a possibilidade de fechar o Estreito de Ormuz — principal rota do petróleo mundial. Se o Conselho de Segurança Nacional do Irã confirmar a decisão, o Ocidente enfrentará uma crise energética sem precedentes, com os preços do barril de petróleo fora de controle. Essa ação retaliatória já tinha sido anunciada pelo Irã caso fosse atacado pelos EUA. Na verdade, em termos estratégicos, uma ação bem sucedida de minagem do Estreito de Ormuz obrigaria os EUA a negociar, o que seria uma fragorosa derrota geopolítica para Trump e seus neocons. Outra hipótese seria uma “aventura suicida” terrestre dentro do Irã, uma estupidez se os americanos optassem por essa via.
No caso hipotético do fechamento do estreito de ormuz, o preço do barril de petróleo, como dissemos, explodiria e quem ganharia com isso seria o próprio Irã, que tem oleodutos interligados via mar cáspio e com a Rússia, que também seria fortemente beneficiada pela explosão de preços. Os que mais perderiam seriam os aliados ocidentais dos EUA na Europa. Os “chihuahua“, líderes europeus submissos aos EUA, como costuma dizer jocosamente o analista Pepe Escobar.
A hipocrisia de Washington: Vance antes e depois
JD Vance, agora vice-presidente de Trump, negou que os EUA estejam em guerra com o Irã.
“Estamos em guerra com o programa nuclear iraniano, não com o Irã.”
Mas o que Vance dizia quando era candidato?
Em campanha, Vance criticava duramente as guerras no Oriente Médio, chamando os neoconservadores de “idiotas com poder demais”, e afirmando que atacar o Irã seria um desastre absoluto para os EUA. Ele se opunha firmemente a qualquer nova aventura militar, dizendo que os EUA deveriam se retirar do Oriente Médio e não entrar em novos conflitos.
Hoje, esse mesmo Vance justifica bombardeios com os B-2 e alinha-se ao discurso belicista, como se o ataque fosse apenas um “procedimento técnico”.
Ben Meiselas resume bem a virada:
“A diferença entre o que Vance dizia e o que ele faz agora é a diferença entre quem critica o sistema e quem vira parte dele.”
Trump no campo de golfe, o mundo em chamas
Enquanto os militares americanos se preparavam para a escalada, Trump tirava fotos sorridentes em seu campo de golfe em Bedminster. Depois, fez publicações nas redes exaltando a “unidade do Partido Republicano” e o slogan “MAGA!”. A guerra virou marketing.
Trump não recuou. Ele perdeu o controle
Trump pode ter tentado calar o Irã com bombas, mas reacendeu a diplomacia euroasiática e fortaleceu a imagem de Teerã como vítima de agressão imperialista, o que agora se torna cristalino para a opinião pública mundial (veja vídeo), que empresta ao Irã cada vez mais apoio, e que vê o verdadeiro eixo do mal como sendo os Estados Unidos e Israel.
“Trump incendiou o Oriente Médio, fracassou militarmente e agora finge que nada aconteceu.” (Ben Meiselas)
Video de manifestações em apoio ao Irã pelo mundo.

