Mar, História e Poder Naval: o Brasil diante de sua vocação esquecida
Nacional, Geopolítica, Cultura
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Por PolitikBr I Brasília, Em 17/01/2026, 17h:01, leitura: 6 min
A história do Brasil costuma ser narrada a partir de suas incursões terrestres, dos ciclos econômicos do interior e das grandes marchas rumo ao oeste.

Essa tradição historiográfica, no entanto, carrega uma omissão grave: subestima o papel decisivo do mar na própria formação da nacionalidade brasileira. Não se trata de lirismo geográfico ou de metáfora conveniente, mas de um dado estrutural da nossa existência como país.
Desde o momento em que as caravelas portuguesas romperam o horizonte do Atlântico Sul, em 1500, o destino do Brasil passou a ser indissociável do mar. O oceano foi via de chegada e de disputa, de integração e de defesa, de riqueza e de soberania. Ignorar essa premissa é, em última instância, ignorar o próprio Brasil.

É justamente essa lacuna de percepção histórica que a 2ª edição do e-book Introdução à História Marítima Brasileira, publicado pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha do Brasil, busca preencher.
A obra não se limita a um registro erudito do passado naval; ela se apresenta como um convite à reflexão estratégica e, sobretudo, como um alerta.

Ao percorrer, de forma didática e rigorosa, o arco histórico que vai das Grandes Navegações à consolidação da Marinha Imperial, o livro evidencia um padrão recorrente e preocupante da trajetória nacional: a tendência a reconhecer a importância do Poder Naval apenas em momentos de crise extrema, para, superado o perigo imediato, relegá-lo novamente à negligência orçamentária e política.
A leitura do e-book é reveladora – download nesse link – ao demonstrar que a construção do Estado brasileiro foi, desde o início, um empreendimento essencialmente marítimo.
A ocupação e a preservação do território nacional não se deram por um impulso espontâneo de interiorização, mas a partir do controle do litoral, da ação de forças navais e da criação de núcleos costeiros que serviram como base para a expansão continental.

A expulsão de franceses no Rio de Janeiro e no Maranhão, assim como a longa luta contra a presença holandesa no Nordeste, foram conflitos nos quais o domínio do mar e das rotas costeiras foi decisivo. Sem uma presença naval, ainda que incipiente, Portugal teria perdido parcelas significativas de seu território americano.
A própria Independência do Brasil, como a obra destaca, se consolidou menos no gesto simbólico do Ipiranga e mais na imposição de um bloqueio naval eficaz. A atuação da recém-criada Esquadra brasileira, sob o comando de Thomas Cochrane, foi fundamental para neutralizar as províncias ainda leais a Lisboa.
No período imperial, a Marinha se tornou instrumento central de coesão territorial. Em todos esses momentos históricos, o investimento em meios navais se revelou não um luxo, mas uma condição de sobrevivência e unidade nacional.
O problema, como o livro sugere de forma implícita, é que esse aprendizado raramente se converteu em política de Estado duradoura. O Brasil desenvolveu uma espécie de “síndrome do bombeiro”: só valoriza a sua Marinha quando o incêndio já está em curso. Passada a emergência, se instalam a complacência e o esquecimento. Programas de reaparelhamento são adiados, doutrinas são abandonadas e a força naval é reduzida à funções simbólicas ou meramente administrativas. O pós-Segunda Guerra Mundial representa o ápice desse ciclo: apesar da importância da Marinha brasileira na campanha do Atlântico, o período seguinte foi marcado por estagnação tecnológica e pela perda gradual de capacidades estratégicas.

Essa herança de negligência acumulada se torna particularmente grave diante dos desafios contemporâneos. A Amazônia Azul — expressão que designa a Zona Econômica Exclusiva brasileira, com cerca de 3,6 milhões de km² — não é um conceito retórico, mas uma realidade estratégica de primeira grandeza. Nela se concentram as principais reservas de petróleo e gás do país, especialmente no pré-sal, além de rotas por onde transita a esmagadora maioria do comércio exterior brasileiro. O solo marinho abriga recursos minerais estratégicos, biodiversidade de valor incalculável e, o mar, cada vez mais, está ligado a projetos da transição energética, como a geração de energia eólica offshore.
A soberania sobre esse espaço marítimo, contudo, não é automática nem garantida apenas por tratados internacionais. Ela exige presença, capacidade de monitoramento, poder de dissuasão e meios adequados de defesa. Um país incapaz de vigiar e proteger a sua Amazônia Azul cria, na prática, um vácuo de poder — e a geopolítica não tolera vazios. Esse espaço tende a ser ocupado por frotas pesqueiras predatórias, por atividades ilícitas transnacionais ou por ações de Estados que, sob o pretexto da liberdade de navegação, realizam levantamentos estratégicos de interesse próprio.
É nesse ponto que a história dialoga diretamente com o presente. Projetos como o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), que inclui a construção do submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, e a renovação da frota de superfície não são meras aquisições militares. São investimentos estruturantes na soberania nacional e na proteção da última grande fronteira econômica brasileira. Negligenciá-los sob o argumento de que “o Brasil não tem inimigos” é uma leitura anacrônica e perigosa.
As ameaças do século XXI estão batendo à nossa porta. Ignorá-las é um ato leviano e irresponsável de qualquer governança.
Essas ameaças se apresentam de forma explícita; elas operam na pressão sobre recursos estratégicos, na espionagem, na criminalidade marítima e na assimetria tecnológica.
Ao resgatar o passado marítimo do país, o e-book da Marinha do Brasil oferece mais do que conhecimento histórico: fornece um diagnóstico preciso de um traço recorrente da nossa fragilidade estratégica — a memória curta e a visão excessivamente continental.
A mensagem ao leitor é clara. Um Brasil que aspira um papel relevante no cenário internacional, que deseja explorar de forma soberana as riquezas da Amazônia Azul e garantir o desenvolvimento nacional seguro e autônomo, precisa se reconciliar definitivamente com a sua vocação marítima.

Ler Introdução à História Marítima Brasileira é, portanto, mais do que revisitar o passado. É compreender que investir em uma Marinha forte, moderna e tecnologicamente avançada não é um capricho militar, mas uma escolha civilizatória. Se trata de honrar um legado histórico e, ao mesmo tempo, de proteger o futuro.
A história é escrita a partir de atos do presente. Persistir na alternância entre negligência e urgência é correr o risco de assistir, passivamente, a uma nova forma de invasão — silenciosa, tecnológica e econômica — sobre as riquezas do nosso mar.
Este texto foi baseado em:
- Marinha do Brasil. Introdução à História Marítima Brasileira, 2ª edição. Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM), 2025. E-book institucional Historia da Marinha
- Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), 1982.
- Documentos e publicações institucionais da Marinha do Brasil sobre a Amazônia Azul e o PROSUB.
- https://www.marinha.mil.br/programas-estrategicos/prosub