Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 21/01/2026, 19h:50, leitura: 6 min
A aliança transatlântica, longe de ser um pacto entre iguais forjado nos escombros da Segunda Grande Guerra, se revela hoje em sua essência mais crua: uma relação de vassalagem econômica, militar e política, onde o suserano, reeleito e fortalecido, não hesita em “esfregar na cara”, com cinismo, a subserviência de seus aliados.

O tratamento dispensado por Donald Trump a Emmanuel Macron, e por extensão à União Europeia, não foi mais um mero capricho de campanha, mas a política de Estado de uma superpotência que enxerga os seus parceiros históricos como protetorados relutantes e devedores insolventes.
A obsessão pública pela posse, a todo o custo, da Groenlândia sob o mote da “defesa dos interesses americanos no Ártico“, e a divulgação de mensagens privadas de Macron por Trump foram apenas o prólogo.
Trump sistematiza o desprezo, transformando a humilhação episódica em uma estratégia constante de pressão, sabedor de que a Europa, hoje, é um continente capturado, dependente e, portanto, profundamente vulnerável.
A cena insólita da divulgação, na Truth Social – rede social de Donald Trump Social – da mensagem do presidente Macron perguntando a Trump o que ele está fazendo – é uma demonstração de como Trump vê a Europa. Mas é também uma demonstração do que uma liderança medíocre e submissa, como a de Macron, recebe em troca, envergonhando não somente a si, mas a França e toda a Europa.
“Na mensagem à Trump, Macron também comenta sobre a Síria e o Irã:
“estamos totalmente alinhados em relação à Síria. Podemos fazer grandes coisas em relação ao Irã – Podemos quem Macron? Quem é o “nós” nessa história? –. Não entendo o que você está fazendo em relação à Groenlândia. Vamos tentar construir grandes coisas”.” (Portal G1)
O tom conciliatório, e até conspiratório de Macron, desconsidera o óbvio: Trump opera de forma ditatorial. Com a caneta e o decreto na mão.
A Sputnik News, citando o The Guardian, diz que Trump quis prejudicar Macron ao divulgar a mensagem. Como poderia ser diferente?
As ameaças de Trump da imposição de tarifas econômicas aos europeus, se a Groenlândia não for entregue em uma “bandeja de prata“, não são bravatas de campanha, mas instrumento real de coação econômica.
O objetivo de Trump permanece inalterado: a humilhação ritualística e a demonstração inequívoca de quem detém o poder real, em relação aos submissos europeus.
Esta dinâmica é a lógica prática de uma retórica de desconstrução de regras, que reduziu a complexa arquitetura de segurança pós-1945, a uma transação comercial vulgar.
Esta narrativa ignora, por conveniência, que o preço pago pela Europa foi a abdicação de sua autonomia estratégica e a aceitação de um papel subalterno. Se colocando como linha de frente ao “bicho papão” russo, enquanto os Estados Unidos estão confortavelmente do outro lado do Atlântico, mexendo os pauzinhos no vespeiro.
A dependência militar é o alicerce inabalável desta servidão. A OTAN, sob a hegemonia incontestável dos EUA, foi e é o instrumento perfeito: primeiro, para conter a URSS; depois, para controlar os aliados e expandir a esfera de influência para o Leste, incorporando antigos membros do Pacto de Varsóvia, em um movimento que especialistas já previram como um “erro trágico“.
O conflito na Ucrânia, que se arrasta desde 2022, e agora entra em seu quarto ano, é o desfecho sangrento desta política. A Rússia não reagiu ao cerco estratégico do Ocidente, mesmo após a sua expansão em três ondas. Mas a Ucrânia foi a gota d` água. Foi literalmente cutucar um “urso ressentido” com vara curta. E a Europa, linha de frente dessa expansão, não construiu uma estrutura de dissuasão própria, ficando totalmente dependente da logística e do armamento americano.
E voltando no tempo, a aposta europeia de 2022 foi estúpida. Sem sentido. Sem energia nada funciona.
A Europa ao abdicar do gás russo caiu nas mãos das empresas de energia norte-americanas. Refém de preços absurdos e de logística complexa.
Trump se orgulha em dizer que foi ele que não permitiu que o Nord Stream 2 entrasse em operação – Trump e a sabotagem ao gasoduto Nord Stream 2. Mas, de fato, se sabe que o governo alemão consentiu que os EUA sabotassem o gasoduto. Isto é, uma vergonhosa auto sabotagem.
Um relatório da HedgePoint Global Markets, mostra que ao substituir o gás russo pelo americano, a Europa, deliberadamente, ficou na mão de Trump. E, como reportado pelo G1, mesmo nesse cenário instável, alguns países da UE já consideram, pragmaticamente, um retorno parcial ao gás russo, expondo uma contradição entre princípios e sobrevivência econômica.
Trump, no comando, usa a fraqueza da Europa com frieza. As ameaças de retaliação econômica aos europeus são, na verdade, ameaças à disponibilidade e ao custo da energia que mantém as luzes acesas e as fábricas europeias funcionamento. É um poder de veto sobre a economia do continente.
Diante deste quadro, a reação europeia é de uma patética imobilidade.
O ministro das finanças francês, Bruno Le Maire, ainda fala em “convencer os EUA com firmeza e cortesia“. A UE “prepara retaliações“, como noticiado. Mas que firmeza é possível quando o presidente americano culpa publicamente a Noruega por não ganhar um Prêmio Nobel, em um ataque surreal, que destila desdém pela própria ideia de parceria? Que retaliação é viável quando se depende do gás, da segurança e, em grande medida, da tecnologia americana? São gestos de quem ainda opera num mundo que não existe mais.
Leia ainda:
A Europa se desindustrializa, a olhos vistos, sob o peso da energia americana cara, enquanto a América, de Trump, acelera a sua reindustrialização cooptando, com oferta de energia subsidiada e barata, as empresas europeias, em especial as alemães.
A aventura nada pragmática de demonizar a Rússia cobra o seu preço.
A humilhação imposta a Macron no novo contexto é, portanto, a humilhação de um continente que não consegue sequer coordenar uma posição comum, como visto na recusa isolada de Macron em compor um conselho para Gaza, sob os ditames americanos.
O projeto de uma Europa poderosa e autónoma, que Macron vocalizou, esbarra na realidade gélida de sua dependência estrutural, agora administrada por um suserano que não vê valor na diplomacia, apenas na submissão.
Esse artigo foi baseado em:
- https://www.brasil247.com/mundo/antes-de-ser-humilhado-por-trump-macron-defendeu-acoes-imperialistas-na-siria-e-no-ira
- https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2026/01/7336304-macron-recusa-convite-para-compor-conselho-da-paz-de-gaza.html
- https://noticiabrasil.net.br/20260119/ministro-das-financas-frances-europa-quer-convencer-os-eua-com-firmeza-e-cortesia-de-que-nao-e-47176788.html
- https://noticiabrasil.net.br/20260119/midia-ue-prepara-retaliacao-apos-ameacas-de-trump-e-crise-sobre-controle-da-groenlandia-47168799.html
- https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/macron-ameaca-de-trump-de-tarifas-sobre-a-groenlandia-e-inaceitavel/
- https://www.cmjornal.pt/mundo/detalhe/nao-compreendo-o-que-estas-a-fazer-na-gronelandia-trump-divulga-mensagem-privada-de-macron
- https://brasilenergia.com.br/petroleoegas/europa-cada-vez-mais-dependente-do-gas-natural-dos-eua-aponta-hedgepoint-global-markets/
- https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/04/14/de-volta-ao-gas-russo-uniao-europeia-enfrenta-dilema-de-seguranca-energetica.ghtml
- https://politicaemdebate.org/2026/01/19/trump-culpa-a-noruega-por-nao-vencer-o-premio-nobel/


