Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 10/01/2026, 20h:12, leitura: 5 min
Editor: Rocha, J.C.
O inverno voltou a avançar sobre a Europa como um credor impiedoso. Mas desta vez o frio que desce sobre Berlim, Paris e Varsóvia carrega algo mais profundo do que a meteorologia: ele traz a conta acumulada de décadas de ilusões estratégicas, arrogância política e cegueira geopolítica.
A crise energética que hoje assombra o continente não é um acidente histórico — é o resultado lógico de uma aposta errada sobre quem controlaria o coração térmico da Europa.
Durante meses, analistas europeus tentaram minimizar os sinais vindos de Moscou. Os rumores sobre um corte definitivo do gás enviado pela Rússia para os países beligerantes europeus, inimigos da Rússia, eram tratados como blefe. Mas o que agora se revela é muito mais grave: o corte deixou de ser diplomático — se tornou físico. Um recado mais que direto de que a Rússia resolveu abandonar seus clientes europeus, que prosperaram durante décadas com o gás barato da Rússia; e se voltar, em definitivo, para o leste. Para a Ásia.
Putin teria falado em uma reunião com seu staff que estava na hora de parar de fornecer gás russo para países que usam a energia russa para se aquecer e fabricar armas para atacar a própria Rússia.
A Rússia cansou da hipocrisia dos países europeus que clamam pelo fim da guerra e ao mesmo tempo sabotam qualquer esforço que se faça para terminar a guerra. Isso é púbico e notório.
No final de 2025, a Gazprom – a estatal russa de hidrocarbonetos – iniciou o desmantelamento real, físico, de uma seção de mais de 100 metros do gasoduto Yamal-Europa em território russo, na região de Smolensk. Não se tratou de fechar válvulas. Se tratou de remover aço, tubulações, estações de compressão — destruir a própria infraestrutura que por décadas alimentou a economia europeia.
O gasoduto Yamal – Europa parte dos vastos campos de gás ao norte da Rússia, atravessa a Bielo Rússia, a Polônia, até chegar à Alemanha, e dali é interconectado com outros gasodutos para outros países europeus.
A decisão russa, em consequência, não admite retorno rápido. É uma decisão, aparentemente., em definitivo.
Esse gesto dos russos não surgiu do nada. Ele é o capítulo final de uma escalada no qual a Polônia, ainda em 2022, anunciou o congelamento dos ativos da Gazprom e resolveu nacionalizar o trecho do gasoduto, em seu território, por meio da joint venture EuRoPol GAZ.
Moscou respondeu incluindo a empresa na sua lista de sanções, proibindo o uso do trecho polonês. Quando Varsóvia, em 2023, estabeleceu uma compensação de US$ 183 milhões pela nacionalização, o Kremlin interpretou o ato como um confisco definitivo. A resposta russa, agora, no começo de 2026, veio na forma de guindastes e maçaricos, não de apelos ou de negociação. A velha força bruta. Não há nada mais definitivo do que isso.
O Yamal-Europa está sendo desmontado para garantir que jamais possa ser reativado, mesmo sob um futuro governo europeu mais conciliador.
Mas será esse o último lance do fim da dependência europeia do gás russo? Pode ser que não. Nos bastidores se trava uma batalha tão simbólica quanto estratégica: o futuro do Nord Stream 2.
Os mesmos EUA que sob Joe Biden sabotou e destruiu o Nord Stream 1 e 2 agora se movimenta para ter o controle da parte alemã dos negócios; em um Nord Strem 2 recuperado e operacional, isso, claro, em parceria com os russos. É o cúmulo da canalhice de Trump e Cia. Mas quem se ajoelha está fadado a ser humilhado e desprezado. E Trump sente desprezo pela liderança europeia. Vassala. Submissa.
O gasoduto que se tornou o ícone da dependência alemã do gás russo — e que nunca entrou em operação — se tornou alvo de uma articulação de bastidores surreal. O investidor americano, Stephen P. Lynch, ligado ao círculo financeiro e político de Donald Trump, tenta comprar o ativo em liquidação na Suíça. O plano, apoiado por lobistas com vínculos diretos a Trump Jr., seria substituir a Alemanha no controle do gasoduto, colocando-o sob controle americano como ferramenta de “alavancagem geopolítica”. Leia-se. A perpétua submissão da Europa aos Estados Unidos na questão energética.
O que isso revela é brutal: Washington quer controlar o que Berlim consentiu que Biden destruísse.
O governo alemão, entretanto, deixou claro que usará todo o arsenal regulatório — ambiental, energético, e de segurança — para bloquear qualquer reativação do Nord Stream 2, independentemente de quem seja o dono. Será mesmo? Da mesma forma que os europeus irão defender a Groenlândia da cobiça imperialista de Trump? Quem acredita nisso?
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Para Berlim, permitir que esse gasoduto venha a operar, mesmo sob bandeira americana, seria um suicídio estratégico: trairia os seus aliados, enterraria a sua credibilidade política e reabriria a sua dependência de gás russo. Essa argumentação chega a se risível vinda dos alemães.
Esse ponto é crucial: pela primeira vez em décadas, o maior obstáculo à reconexão energética com Moscou não é o Kremlin — é a própria Europa.
E isso ocorre justamente quando os estoques de gás estão mais baixos do que no inverno anterior, quando a margem de segurança em energia encolheu perigosamente e quando a indústria alemã perde competitividade, desemprega, e abandona o país.
A Agência Internacional de Energia, os operadores europeus de sistema e a própria Gazprom confirmam: a Europa está mais exposta do que admite.
Ao mesmo tempo, Moscou não precisa mais da Europa. O gás que antes fluía barato e farto para enriquecer a Alemanha e levar prosperidade aos alemães, agora flui para a China através do Poder da Sibéria. O mesmo se dá com a Índia, Bangladesh, Paquistão, diversos outros parceiros asiáticos; e até mesmo do golfo pérsico. Contratos de longo prazo e infraestrutura asiática garantem demanda estável. A “virada para o Oriente” não é retórica — é uma realidade soldada em aço.
E aqui emerge a ironia histórica: ao mesmo momento em que Macron fala em diálogo e o chanceler alemão admite que concessões serão inevitáveis para por fim à guerra da Ucrânia, a infraestrutura que permitiria uma reaproximação energética está sendo destruída por Moscou e bloqueada por Berlim.
O inverno de 2026 não testará apenas aquecedores e estoques. Ele testará uma nova fronteira geopolítica. O frio que chega não é apenas climático — é o frio do fim de uma era, selado por tubos arrancados do chão e por válvulas que, provavelmente, jamais voltarão a se abrir.
Esse artigo foi baseado em:
- https://noticiabrasil.net.br/20260106/chanceler-alemao-admite-que-ucrania-e-europa-terao-que-fazer-concessoes-para-chegar-a-paz-46810793.html
- https://noticiabrasil.net.br/20260106/macron-admite-necessidade-de-dialogo-com-putin-sobre-a-ucrania-apos-meses-de-recusa-diplomatica-46812128.html
- https://logos-pres.md/en/news/gas-reserves-in-europe-are-lower-than-last-year/
- https://www.cleanenergywire.org/news/nord-stream-2-twists-and-turns-controversial-gas-pipeline
- https://www.dw.com/en/germany-cdu-nord-stream-russia-gas-afd-far-right/a-72060104
- https://energy.ec.europa.eu/news/eu-prepared-winter-and-beyond-confirms-latest-report-european-transmission-system-operators-gas-2025-10-09_en
- https://istories.media/en/opinions/2025/03/14/russia-is-preparing-to-restore-the-nord-stream-gas-pipeline/
- https://caspianpost.com/energy/gazprom-says-eu-gas-storage-levels-dip-under-60
- https://www.reuters.com/business/energy/poland-sets-compensation-polish-section-yamal-pipeline-183-mln-pap-2023-10-13/
- https://tass.com/economy/1450219
- https://www.dagens.com/world/germany-to-block-u-s-russia-nord-stream-2-deal
- https://nationalpost.com/opinion/terry-glavin-trump-has-already-decided-russia-is-the-winner-of-the-war