Nacional, Política
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Por PolitikBr I Brasília, Em 27/12/2025, 09h:56, leitura: 7 min
Editor; Rocha, J.C.

Os fujões bosonaristas não dão trégua. Assim que são condenados arrumam um jeitinho e fogem ou tentam fugir. Eles não tiveram pudores ou limites em conspirar, atentar contra as Instituições democráticas e até planejar assassinar um ministro do STF, e os vencedores da eleição de 2022. Lula e Alckmin. Não. Era tudo balela jogar dentro das “quatro linhas da constituição”. Aliás, quem pode acreditar na seriedade de fascistas e golpistas? Que eles iriam respeitar a vontade popular, que decidiu por Lula e Alckmin? As ditaduras negam a liberdade de escolha ao povo. Esse é um dos pilares da distopia pseudo democrata, que eles arrotam respeitar.
E não deu outra. O Brasil testemunhou, na véspera do Natal de 2025, mais um capítulo surreal de uma trama que se repete com uma constância perturbadora.
Desta vez, o protagonista da fuga foi Silvinei Vasques, ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), condenado a mais de 26 anos de prisão por atentar contra a democracia brasileira. Sua tentativa de escapar, porém, não foi uma fuga qualquer. Foi uma operação de contornos quase ficcionais, repleta de mentiras descaradas, documentos falsificados e uma absurda encenação de saúde que ele imaginou ser seu passaporte para a liberdade.
Essa tentativa malograda, contudo, não é um episódio isolado. Ela é a ponta de um iceberg de impunidade, falhas sistêmicas e uma cultura de fuga que parece ter se instalado entre os condenados pelo golpismo de 2022.
A cena captada pelas câmeras de segurança do prédio onde Silvinei morava, em São José (SC), na noite de 24 de dezembro, parecia comum: um homem carregando sacos, tapete higiênico, ração e um cachorro da raça pitbull em um carro alugado. O que as imagens não mostravam era o início de uma jornada desesperada.
Às 3h da manhã do dia 25, o sinal de GPS da tornozeleira eletrônica que ele usava silenciou. Às 13h, qualquer transmissão do dispositivo cessou. Silvinei havia sumido. Apenas às 20h, quase um dia inteiro depois do primeiro alerta técnico, a Polícia Penal de Santa Catarina foi até o apartamento e constatou o óbvio: ele não estava mais lá. O que foi isso? Incompetência ou conluio?

Enquanto as autoridades policiais brasileiras demoravam para reagir, Silvinei Vasques, em sua saga desesperada, já percorrera todo o estado de Santa Catarina, passado por Foz do Iguaçu e cruzado todo o Paraguai até Assunção. Lá, ele foi pego no aeroporto de Assunção – já na madrugada de 26 de dezembro – tentando embarcar para El Salvador com um passaporte paraguaio falso, no nome de “Júlio Eduardo Baez”.
Para completar o disfarce, o criativo Silvinei – Por quanto tempo essa tentativa de fuga foi planejada? Quem ajudou? – apresentou um laudo médico forjado. O documento, assinado por um médico, que sequer existia – o CRM usado, entretanto, pertencia a um médico de verdade –, afirmava que Silvinei era portador de um câncer cerebral em estágio terminal. A doença, segundo a mentira impressa no papel, o teria deixado incapaz de falar e de ouvir. Era a persona perfeita para não levantar suspeitas na imigração: um suposto cidadão paraguaio, mudo, surdo e à beira da morte (câncer em estágio IV), em busca de um tratamento milagroso no país do presidente Nayib Bukele, ídolo da extrema direita latino-americana.
A falácia, previsivelmente, ruiu. A polícia paraguaia, que havia sido alertada pela Polícia Federal brasileira por meio de seu adido em Assunção, o interceptou. A farsa do silêncio foi desmascarada pela simples e sagaz desconfiança de um agente migratório que, diante da cena excêntrica, deve ter pensado o óbvio: algo ali não fazia sentido.
O Brasil, mais uma vez, foi poupado de um vexame internacional pela eficiência de uma força policial estrangeira, enquanto seu próprio sistema de monitoramento falhava de maneira grosseira e inexplicável.
A pergunta que se impõe é: como um homem condenado por crimes gravíssimos, sob vigilância eletrônica, conseguiu cruzar tranquilamente o estado de Santa Catarina, entrar no Paraguai e chegar até o balcão de embarque internacional sem ser interceptado?
A cronologia dos fatos, detalhada em relatos da imprensa e no próprio despacho do ministro Alexandre de Moraes, que decretou a sua prisão preventiva, expõe uma sequência de falhas que beira à negligência ou conluio. Foram mais de 20 horas entre a primeira anomalia na tornozeleira e a chegada efetiva da Polícia Penal ao cenário do crime. Esse intervalo lembra perigosamente o caso do ex-presidente Fernando Collor, cuja tornozeleira ficou 36 horas sem transmitir sinal em 2024, sem que houvesse qualquer punição ou explicação satisfatória às autoridades judiciárias. A ausência de consequências naquela ocasião parece ter pavimentado o caminho para a repetição do erro.
A tentativa de fuga de Silvinei Vasques se insere em um padrão de comportamento que se tornou uma marca registrada de bolsonaristas condenados. Alan dos Santos, youtuber bolsonarista, está foragido nos Estados Unidos. A ex-deputada Carla Zambelli, também condenada, fugiu inicialmente para os EUA e hoje está detida na Itália, aguardando deportação. Alexandre Ramagem, ex-chefe da ABIN, condenado a 16 anos, igualmente buscou refúgio em solo americano. Eles fogem porque foram punidos por tentar quebrar a democracia. Fogem porque não aceitam o veredito das urnas e das cortes. Fogem porque, em algum lugar, acreditam que a lei não os alcançará.
Essa saga de fugas não é um acidente. É sintomática de um projeto político que, ao fracassar na tentativa de golpe, busca agora escapar das consequências. A chamada “Lei da Dosimetria”, que visa reduzir penas de condenados e cujo veto pelo presidente Lula está em discussão, é outra peça neste tabuleiro. Ela representa uma tentativa institucional de anistiar ou atenuar a punição daqueles que atentaram contra o Estado Democrático de Direito. Enquanto alguns fogem pelas fronteiras, outros apostam em manobras legislativas para escapar pelas brechas da lei.
O caso Silvinei, porém, vai além da fuga. Ele evidencia a podridão de um sistema que permite a um ex-dirigente de uma polícia federal, condenado por usar a estrutura do Estado para impedir os eleitores de votar – lembrem-se das blitzes abusivas da PRF, não só no nordeste no segundo turno de 2022, mas também em outros redutos eleitorais onde, após serem mapeados os resultados do primeiro turno das eleições, golpistas como Silvinei e seus parças, sabiam que Lula era favorito –, continuar recebendo abrigo e possivelmente ajuda dentro de esferas de poder. Sua breve passagem como secretário no governo de Santa Catarina, mesmo sob suspeita, e a demora inexplicável da polícia local em agir diante da pane em sua tornozeleira, levantam questões graves sobre cumplicidade e blindagem.
Qual é, afinal, a função de um sistema de monitoramento eletrônico que falha de maneira tão recorrente e flagrante? Quem paga a conta dessa estrutura cara e ineficaz? A sociedade brasileira precisa de respostas. Não se pode tratar a tornozeleira eletrônica como um adereço inócuo, cujo funcionamento é intermitente e conveniente.
No caso do ex-presidente Jair Bolsonaro, a tecnologia funcionou: os técnicos chegaram rapidamente à sua casa quando houve uma tentativa de violação. Mas dezenas de outros, envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, conseguiram escapar para o exterior estando sob “monitoramento”. A situação se repetiu agora.
O Brasil real não pode mais aceitar uma realidade onde a lei é branda para alguns, onde o monitoramento é opcional e onde tentativas de destruir a democracia são seguidas por fugas e tentativas de fuga até caricatas, sem que haja uma investigação rigorosa e punição exemplar para todos os envolvidos – inclusive aqueles que, por ação ou omissão, permitiram que ela ocorresse.
A narrativa do “surdo, mudo e canceroso” não é apenas o roteiro patético de um homem acuado. É um espelho da crise institucional brasileira. Enquanto não houver um basta, um enfrentamento sério e transparente dessas falhas e uma punição real a todos os golpistas e seus cúmplices, novos capítulos dessa mesma história continuarão a ser escritos, cada vez mais absurdos e cada vez mais prejudiciais à já combalida credibilidade das instituições do país.
Esse artigo foi baseado em:
- https://politicaemdebate.org/2025/12/19/o-conflito-nos-bastidores-a-crise-que-levou-a-dosimetria-ao-stf/
- https://youtu.be/Ga-4HsbWhFQ?si=9-xIhMpYmscLh-B-
- https://politicaemdebate.org/2025/12/16/a-incomoda-pf/
- https://politicaemdebate.org/2025/12/18/pl-da-dosimetria-tese-uma-peca-de-teatro-politico/
- https://www.diariodocentrodomundo.com.br/silvinei-foi-preso-com-carta-sobre-cancer-no-cerebro-e-remedio-para-hiv/
- https://www.em.com.br/politica/2025/12/7321470-moraes-determina-prisao-preventiva-de-ex-prf-apos-tentativa-de-fuga.html
- Collor diz ao STF que tornozeleira ficou 36 horas desligada porque bateria acabou e ele não viu – ISTOÉ DINHEIRO