A Roubalheira Pública e a PF que Investiga: Sóstenes (PL) e Jordy (PL) acusados de corrupção

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Por PolitikBr I Brasília, Em 20/12/2025, 20h:26, leitura: 9 min

Editor: Rocha, J.C.

Enquanto o Brasil se prepara para as festas de fim de ano, uma cena se repete com uma familiaridade que envergonha: agentes da Polícia Federal deixam a residência de um parlamentar carregando pacotes de dinheiro vivo. Desta vez, o endereço era o flat do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder da maior bancada de oposição na Câmara – Partido Liberal (PL). Apreendidos: R$ 430 mil em notas de R$100outras fontes dizem que foram R$ 470 mil -, lacradas e escondidas em um armário. A operação, batizada de “Galho Fraco“, investiga um esquema de desvio de cotas parlamentares.

A imagem do dinheiro empilhado surge como um epílogo grotesco de uma semana conturbada. Apenas um dia antes, a Mesa Diretora da Câmara, liderada por Hugo Motta (Republicanos-PB), cassava os mandatos de dois expoentes do bolsonarismo: Alexandre Ramagem, condenado pelo STF a 16 anos por participação em tentativa de golpe de Estado, e Eduardo Bolsonaro, cassado por excesso de faltas. Ramagem, ex-diretor da Abin, foi acusado pela Procuradoria Geral da República (PGR) de usar a agência para vigiar adversários políticos e alimentar ataques ao sistema eleitoral. Eduardo, por sua vez, é alvo de denúncia por atuar nos Estados Unidos para coagir autoridades brasileiras.

O que parece uma coincidência de calendário é, na verdade, a exposição aguda de uma crise crônica. Estamos diante de um padrão, não de incidentes isolados. De um lado, uma vertente de ilegalidade associada a projetos autoritários e de desestabilização da ordem democrática. De outro, a velha e sempre renovada corrupção por motivos de enriquecimento pessoal, que drena o erário por meio de mecanismos institucionalizados.

O “Lapso” de R$ 430 Mil

A explicação dada por Sóstenes Cavalcante para a fortuna em espécie em sua casa foi de uma simplicidade que beira o surreal. Segundo ele, o dinheiro era proveniente da venda recente de um imóvel em Minas Gerais, e a falha em depositá-lo no banco foi um mero “lapso” devido à “correria do trabalho.

Dinheiro de corrupção não aparece lacrado, identificado e recolhido oficialmente na sua residência“, argumentou o deputado, em uma tentativa de inverter a lógica que associa grandes quantias em dinheiro vivo à atividades ilícitas.

No entanto, o ministro do STF Flávio Dino, ao autorizar a operação, descreveu um esquema muito mais complexo e deliberado do que um simples esquecimento. As investigações apontam para um desvio sistemático da cota parlamentar – verba pública destinada a custear despesas do mandato – por meio de “despesas inexistentes” e empresas de fachada.

Assessores dos gabinetes de Sóstenes e do também investigado deputado Carlos Jordy (PL-RJ) são acusados de atuar em conluio para dar aparência legal ao esquema.

A técnica suspeita é conhecida. Se chama “smurfing” ou estruturação: saques e depósitos são fracionados em valores sempre abaixo de R$ 10 mil, justamente para evitar os sistemas de controle do Banco Central e das instituições financeiras.

Diálogos de WhatsApp apreendidos pela PF mencionam “pagamento por fora“, indicando um circuito paralelo de dinheiro. Esse modus operandi, que envolve verbas públicas, funcionários comissionados, empresas fantasmas e ocultação de valores, é o que os investigadores chamam de um “roteiro clássico” de corrupção política.

A Geografia Variada da Ilicitude na Extrema Direita

O caso Sóstenes não é uma ilha. Ele se insere em um arquipélago de escândalos que atinge figuras centrais do campo bolsonarista, revelando diferentes facetas da ilegalidade. Enquanto Sóstenes responde por suspeitas de corrupção financeira tradicional, seus colegas de partido enfrentam acusações de natureza política mais grave – Hugo Motta Recua e Sela o Destino de Ramagem e Eduardo Bolsonaro.

Outro membro da família política, Eduardo Cavalcanti Vasconcelos (sem relação direta com Sóstenes), filiado ao Avante, foi condenado por improbidade administrativa. Enquanto presidia o Conselho Regional de Odontologia de Pernambuco (CRO-PE), ele desviou R$ 17 mil da autarquia para financiar 14 outdoors com sua foto e nome, no ano em que era candidato a deputado estadual, sob a fachada de uma campanha de saúde bucal. A Justiça entendeu que a intenção era clara: usar recursos públicos para promoção pessoal.

No plano municipal, a Operação Mensageiro, em Santa Catarina, colocou luz em como a corrupção pode se institucionalizar. A investigação, que já prendeu 17 prefeitos no estado, desmontou um vasto esquema criminoso no setor de coleta de lixo. Um dos envolvidos, o ex-prefeito de Pescaria Brava, Deyvisonn Souza, foi condenado, em primeira instância, a 64 anos de prisão.

Um levantamento do G1 mostra que, só em Santa Catarina, 28 prefeitos foram presos nos últimos quatro anos, um número que representa quase 10% dos municípios do estado. Partidos como MDB, PSD, Republicanos, PP e o próprio PL aparecem na lista dos envolvidos, evidenciando que a prática é transversal.

O Sistema que Alimenta a Corrupção: O “Orçamento Secreto” e a Hipertrofia do Legislativo

Para entender como tantos esquemas florescem, é preciso olhar para o subsistema político que os nutre. O grande combustível da corrupção parlamentar moderna tem nome: as emendas orçamentárias individuais, especialmente o chamado “orçamento secreto”.

Esse mecanismo, que teve crescimento exponencial durante o governo Bolsonaro, transformou deputados e senadores em gestores diretos de vultosas somas do tesouro nacional. Em 2024, os parlamentares tiveram à disposição R$ 44,6 bilhões em emendas, valor quatro vezes maior que a média entre 2015 e 2019. Em 2025 foram R$ 53 milhões e em 2026 há previsão no orçamento federal recém aprovado de R$ 61 bilhões em emendas.

Se algo não for feito urgente, vai ser uma verdadeira festa para os políticos corruptos, que não servem ao povo; mas que se servem do povo. Esse dinheiro, que deveria ser destinado a investimentos com transparência, em geral, é usado para beneficiar bases eleitorais e municípios aliados, com pouca ou nenhuma fiscalização sobre sua aplicação final.

Além do mais, ele é descolado do Plano de Investimentos do governo, isto é, um verdadeiro sumidouro dos parcos recursos para investimentos; que quando não são furtados, só favorecem aos “donos” dos currais eleitorais para onde esse montante astronômico é direcionado. Isso é vexatório e, óbvio, alimenta o clientelismo e a corrupção, em última instância.

A revista Piauí revelou, por exemplo, conversas que mencionavam uma “taxa” de 12% cobrada por empresários e políticos com acesso a essas emendas no Ceará. O esquema é propício ao desvio. O próprio ministro Flávio Dino, em ofensiva contra a falta de transparência, suspendeu o pagamento de R$ 4,2 bilhões em emendas no final de 2024.

Esse poder orçamentário colossal, somado à fragmentação partidária (o Congresso hoje tem 21 legendas), criou um Congresso hipertrofiado, que, na verdade, se comporta como um parlamento num regime presidencialista, impondo condições ao Executivo.

Como observou o sociólogo Elmar Nascimento, da Universidade de Brasília, esta é “a pior herança deixada por Bolsonaro”: um Legislativo que “manda no orçamento e na nação”. Nesse ambiente, o desvio de uma cota parlamentar de alguns milhões pode parecer, para alguns, um crime de pequena monta, diante do vasto oceano de recursos sob controle direto dos parlamentares.

A Farsa da “Perseguição”

Diante das provas e mandados judiciais, a reação padrão dos investigados tem sido uma só: gritar “perseguição política”. Sóstenes Cavalcante afirmou que a operação que o atingiu “é mais uma investigação para perseguir quem é da oposição, quem é conservador, quem é de direita”. Carlos Jordy falou em “perseguição implacável.

Tirando uma casquinha nessa situação, típica do chamado “batom na cueca“, Eduardo Bolsonaro, em seu vídeo de despedida após a cassação, disse que foi punido “não por corrupção, por ter encontrado dinheiro na minha cueca“, mas por fazer o que seus eleitores esperavam (sic).

Esta narrativa – perseguição dos pobres parlamentares de direita – , porém, desaba ante o rigor probatório apresentado. No caso de Sóstenes e Jordy, a investigação teve início há um ano. A PGR chegou a se manifestar contra a inclusão dos deputados no início, por falta de indícios. Foi apenas com o acúmulo de novas evidências – como os diálogos de WhatsApp e a análise financeira – que o ministro Dino autorizou os mandados contra eles. Se trata, portanto, de uma investigação minuciosa, de um processo lento, burocrático e baseado em provas; distante da ideia de uma perseguição arbitrária.

O que essa narrativa busca criar é um duplo padrão: as investigações contra políticos petistas ou de esquerda seriam “lava-jatismo” e combate à corrupção; as mesmas investigações, quando atingem bolsonaristas, se tornam “caça às bruxas” e “lawfare“. É uma tentativa de se colocar acima da lei, transformando qualquer forma de prestação de contas em um ato de guerra política. Enquanto isso, o dinheiro em espécie continua aparecendo em flats, as licitações fraudulentas são desmontadas e os planos golpistas são condenados pelo Supremo.

O desafio do Brasil segue sendo duplo. Primeiro, desmontar os mecanismos sistêmicos que facilitam a corrupção, como o orçamento secreto, exigindo transparência absoluta em cada real gasto. Segundo, manter a isonomia perante a lei, rejeitando a narrativa enganosa da perseguição e tratando crime financeiro, golpismo e improbidade com o mesmo rigor, independentemente do campo político do autor.

A Polícia Federal que investiga,e o Judiciário que condena, não são inimigos de um lado ou de outro. São, na melhor tradição republicana, guardiões de um pacto civilizatório mínimo: o de que o cargo público é uma delegação da sociedade, não uma propriedade privada; que o erário é sagrado.

O que está em jogo, com cada saco de dinheiro apreendido, é procurar encontrar mecanismos republicanos que supere, finalmente, a roubalheira institucionalizada.

Esse artigo foi baseado em:

  1. PF apreende R$ 430 mil em casa do deputado Sóstenes Cavalcante 
  2. Mesa diretora da Câmara cassamandatos de Ramagem e Eduardo Bolsonaro 
  3. Hugo Motta Recua e Sela o Destino de Ramagem e Eduardo Bolsonaro
  4. Veja: “Os novos escândalos que testam aliados de Lula e de Bolsonaro”
  5. G1: “Presidente do Conselho Regional de Odontologia é condenado por desviar verba
  6. G1: “Sóstenes diz que R$ 400 mil achados pela PF são de venda de imóvel
  7. G1: “Último dos 17 prefeitos presos pela Operação Mensageiro é solto
  8. CNN Brasil: “Alvo da PF, Sóstenes fala em ‘perseguição‘”
  9. G1 SC: “Com detenção de Clésio Salvaro, SC soma 28 prisões de prefeitos em 4 anos
  10. https://noticiabrasil.net.br/20251219/46258536.html

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