Internacional e Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 17/12/2025, 15h:03, leitura: 10 min
Edição: Rocha, J.C.
A guerra na Ucrânia está entrando em sua fase terminal. O que começou como um conflito localizado se transformou no catalisador de uma transformação geopolítica histórica.
Enquanto a Rússia avança metodicamente, consolidando o controle sobre Kupyansk, depois de ter conquistado a cidade fortaleza de Pokrovsk, – A Queda de Prokovsk e a Manipulação da Informação – e apertando o cerco a Odessa, o Ocidente assiste, impotente, à implosão de sua própria narrativa de poder.
A queda do principal porto de águas profundas ucraniano no Mar Negro não será apenas mais uma cidade tomada; será o marco simbólico do fim da ordem unipolar liderada pelos Estados Unidos, uma realidade que a elite política ocidental se recusa a admitir, mesmo quando ela se desenha diante de seus olhos.
A insistência em uma vitória ucraniana “impossível”, como apontado por analistas militares, não é apenas um erro tático – é um sintoma de uma arrogância estratégica decadente. Por anos, Washington operou sob a ilusão de que poderia remodelar o mundo à sua imagem através de sanções, guerras por procuração e expansão militar, sem enfrentar consequências reais. A Ucrânia se tornou o campo de teste definitivo dessa ilusão, e os resultados são catastróficos.
A Rússia, longe de entrar em colapso sob o peso de sanções “sem precedentes”, se adaptou. Reorientou o seu comércio energético para a China e a Índia; acelerou a produção de sua indústria de guerra, a níveis que a indústria combinada da OTAN não consegue sequer tentar igualar, e provou que um país com recursos, paciência estratégica e parceiros dispostos pode sobreviver – e até prosperar – fora do sistema financeiro ocidental.
Enquanto o Ocidente imaginava que iria impor uma derrota estratégica à Rússia, o que se avizinhava era o colapso das economias europeias, que haviam prosperado por décadas, especialmente a da Alemanha, recebendo gás natural russo a preços baixos.
A Europa, entretanto, aceitou de bom grado ver essa fonte de energia barata ser destroçada no atentado ao Nord Stream 2. Atentado até hoje mal explicado, mas que se sabe ter sido obra dos Estados Unidos – Trump e a sabotagem ao gasoduto Nord Stream 2. Eles queriam, e conseguiram, empurrar goela abaixo dos europeus seu caríssimo gás, obtido via craqueamento hidráulico do xisto betuminoso. Uma energia que os europeus passaram a pagar entre 5 a 7 vezes mais cara que as praticadas industrialmente nos Estados Unidos.
Com os custos – energéticos – industriais e residenciais estratosféricos, o que seria de se esperar? Desindustrialização, empobrecimento e revoltas populares. Com a inflação corroendo o poder de compra do cidadão comum europeu.
Some-se a isso a intensidade da guerra e as perdas humanas e de materiais. Se sabe que os arsenais americanos estão esvaziados a níveis considerados perigosos, a sua própria segurança estratégica.
Na Rússia, não há exaustão. Na verdade, as cadeias produtivas se sofisticaram e se ampliaram como nunca. A capacidade produtividade do esforço de guerra tornou a Rússia exponencialmente mais poderosa militarmente e preparada para novos desafios militares. Os europeus sabem e temem isso. E por causa disso a economia Russa cresce desde 2022 e a popularidade de Putin é elevada. O contrário ocorre nas economias do ocidente europeu, que patinam ou definham a olhos vistos.
Tudo deu errado. As sanções, destinadas à estrangular a Rússia, quebraram a confiança no sistema Swift, em especial quando falamos do furto dos ativos russos. Se houve algo realmente estúpido, esse é o caso. Afinal, quem confiará no dólar ou no euro depositados em bancos europeus e americanos?
Há um movimento continuado de desdolarização global; gradual mas há. E, em decorrência, a construção de um sistema financeiro multipolar, conforme evidenciado pela expansão do BRICS e pela adoção de moedas locais no comércio internacional – Os Planos Secretos da OTAN para Fragmentar a Rússia.

O controle russo sobre Kupyansk, Pokrovsk e o cerco à Odessa não são eventos isolados; são movimentos dentro de uma campanha metódica para garantir o que a Rússia sempre considerou existencial, em especial, o domínio do porto de águas quentes e profundas da costa do Mar Negro.
Comparar essa lógica à Doutrina Monroe dos EUA não é uma defesa da ação russa, mas um exercício de realismo cru. Washington nunca tolerou uma aliança militar hostil em suas fronteiras – a Crise dos Mísseis em Cuba é um testemunho histórico disso. No entanto, de forma prepotente, se esperava que Moscou aceitasse passivamente a expansão da OTAN até a sua porta. Essa foi uma falha de cálculo de proporções históricas.
O apoio ocidental à Ucrânia se revelou uma farsa trágica. Promessas vagas de adesão à OTAN, armas enviadas em quantidade suficiente para prolongar o sofrimento, mas nunca para garantir a vitória, – o que já se sabia que seria impossível, diante de um adversário muito superior – e retórica inflamada sobre “lutar até o último ucraniano” criaram uma armadilha da qual Kiev não pode escapar.
A Ucrânia está sendo desmembrada, a sua economia está destruída e a sua população dizimada, enquanto seus supostos protetores observam de uma distância segura.
As consequências vão muito além da Europa Oriental. A credibilidade das garantias de segurança americanas está em frangalhos. Se os EUA não podem ou não querem impedir a derrota de um aliado que eles mesmos incentivaram a confrontar a Rússia, que credibilidade têm suas promessas a Taiwan, à Coreia do Sul?
O Sul Global observa atentamente, e a conclusão é óbvia: o poder americano tem limites.
A queda de Odessa será o “Momento Suez” do século XXI – o evento que anuncia ao mundo que uma era de hegemonia inconteste chegou ao fim. A escolha que resta ao Ocidente, especialmente aos EUA, é brutal: aceitar a realidade de um mundo multipolar e buscar uma nova arquitetura de segurança baseada no equilíbrio e no respeito à esferas de influência legítimas, ou continuar no caminho da negação, escalando o conflito até um confronto direto e potencialmente catastrófico com uma potência nuclear.
Os líderes ocidentais escolheram a ilusão em detrimento da realidade. Acreditaram em sua própria propaganda, ignoraram as leis da geografia e do poder, e sacrificaram a Ucrânia no altar de uma hegemonia que já não podiam sustentar. O preço está sendo pago em sangue ucraniano, em estabilidade econômica global perdida e no colapso acelerado de uma ordem que durou 75 anos.
O mundo após Odessa será irreconhecível. A pergunta não é mais se a hegemonia americana morrerá, mas como o Ocidente lidará com o seu próprio funeral geopolítico.
Esse artigo foi baseado em:
- https://noticiabrasil.net.br/20251214/vitoria-da-ucrania-no-conflito-com-russia-e-completamente-impossivel-aponta-analista-46062528.html
- https://noticiabrasil.net.br/20251216/cidade-de-kupyansk-esta-sob-controle-do-exercito-da-russia-diz-o-agrupamento-zapad-46117044.html
- https://noticiabrasil.net.br/20251216/apos-19-pacotes-de-sancoes-contra-russia-as-economias-ocidentais-e-que-estao-de-joelhos-diz-46116297.html
- Trump e a sabotagem ao gasoduto Nord Stream 2
- Crise de Suez – Wikipédia, a enciclopédia livre
- A Queda de Prokovsk e a Manipulação da Informação



