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Por PolitikBr I Brasília, Em 16/12/2025, 19h:15, leitura: 10 min
É vexatório assistir o desbaratamento de tantos esquemas de corrupção, de mau uso do dinheiro público, envolvendo parlamentares. É realmente vexatório assistir, quase todos os dias, o noticiário divulgar mais um esquema de corrupção e furto do dinheiro público. Os envolvidos são quase sempre filiados ao Partido Liberal (PL), mas também a outros partidos do chamado Centrão. São sempre eles.
Esse momento é muito peculiar. Essa roubalheira não é de agora. Vem de muito tempo. Ela não começou no governo Bolsonaro, mas foi no governo Bolsonaro, através do famigerado orçamento secreto que ela se amplificou. Onde o furto ao erário público alcançou ares de epidemia. Um total descontrole. Um descalabro monstruoso.
Agora, com uma Polícia Federal (PF) realmente livre para investigar, agir, essa podridão vem à tona. E assusta. Assusta sim; àqueles que devem. Quem tem medo de uma PF que investiga? O cerco à PF, através do PL Antifacção, adulterado para impedir ou mesmo anular a atuação nacional da PF, ao combate ao crime organizado, ao furto público, faz parte disso.
A PF incomoda. Incomoda poderosos, incomoda esquemas e incomoda aqueles que, instalados nas estruturas do Estado, acreditavam ter transformado o erário público em patrimônio pessoal e político. Ao invés de servir ao povo, se servem do povo.
A evidência mais cristalina desse incômodo, é o “orçamento secreto”, prática declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas que teimou em sobreviver nas sombras. A narrativa, costurada a partir de gravações, depoimentos e relatórios da própria PF, é de uma crueza avassaladora. Em novembro de 2025, uma operação deflagrada com autorização do ministro Flávio Dino mirou a ex-assessora e “braço direito” do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, conhecida como Tuca. As investigações, conforme detalhado em reportagens da CNN Brasil, apontam “fortes indícios” de que ela integrava uma estrutura voltada ao “indevido direcionamento de emendas parlamentares” e atuaria “sob ordens diretas de Lira”.
O modus operandi, segundo depoimentos de deputados à Polícia Federal, era direto: Lira, usando sua influência na presidência da Casa, pressionava parlamentares para direcionarem emendas de comissão para o estado de Alagoas, seu reduto eleitoral.
A assessoria de Lira, quando questionada, se limitou a dizer que ele “não é investigado”, enquanto a sua ex-assessora afirmou agir de forma “técnica e apartidária”. O que mais ela poderia dizer, afinal? No entanto, a PF sustenta que Tuca não só controlava quais parlamentares e partidos receberiam recursos, como também atuava para “burlar ordens do Supremo”, que tentava pôr fim ao orçamento secreto; mesmo após a saída de Lira da presidência.
O caso não é isolado. É a ponta de um iceberg corrupto que envolve cifras bilionárias e uma rede que parece abranger líderes de diversos partidos do Centrão e da extrema direita.
Um depoimento emblemático, revelado pela jornalista Daniela Lima, veio do deputado José Rocha (União Brasil-BA), veterano de 12 mandatos. Ele relatou ao ministro Dino ter recebido, por WhatsApp, uma ordem da assessora de Lira para encaminhar o pagamento de mais de R$ 1 bilhão em emendas, sem qualquer especificação.
Ao se recusar a destinar R$ 325 milhões para Alagoas, Rocha sofreu retaliações: foi proibido de representar a Câmara no exterior e ameaçado de ser destituído da presidência de uma comissão.
Em uma conversa tensa, Lira teria dito ao colega veterano que ele estava “atrapalhando acertos feitos diretamente pela presidência da casa com líderes”. A reação de Rocha foi denunciar – e a denúncia foi feita diretamente ao ministro Flávio Dino, em audiência solicitada por Rocha -; e a reação do sistema, muitas vezes, é esmagar quem denuncia.
E ser perseguido, e até ter o mandato cassado, parece que não é um risco hipotético. O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) viveu na pele a represália por denunciar publicamente os mesmos – supostos – esquemas.
Em um discurso no plenário, Braga afirmou que Arthur Lira era “o que há de pior na política brasileira“, detalhando as centenas de fazendas da família, os leilões de gado com valores absurdos e, principalmente, o escândalo do orçamento secreto que beneficiava seu aliado, o prefeito Gilberto Gonçalves –preso múltiplas vezes por corrupção e alvo da Operação Beco da Pecúnia, que flagrou o caminho do dinheiro de emendas até seu cofre.
Por ter ousado dizer em alto e bom som “o que todo mundo já sabe“, Glauber Braga foi processado por quebra de decoro parlamentar – o mote foi um entrevero com um militante do MBL – e quase teve seu mandato cassado.
Em dezembro de 2025, por uma apertada diferença de votos, ele escapou da cassação, mas foi suspenso por seis meses. A punição, ainda que menor, foi lida como uma clara mensagem de intimidação.
O episódio, contudo, teve um desdobramento revelador das tensões no topo do poder: a frustração de Arthur Lira por não ter conseguido a cassação total do denunciante teria gerado atrito com o então presidente da Câmara, Hugo Motta, expondo a pressão política por trás dos processos disciplinares e mostrando como a máquina da Casa pode ser acionada para silenciar vozes inconvenientes.
A sobrevivência política de Braga, conquistada a duras penas, e com muita mobilização popular em apoio ao deputado, se tornou um símbolo da resistência contra a tentativa de se usar as regras do parlamento para impedir a exposição de denúncias de corrupção, por parte de parlamentares, e assim punir a exposição da verdade.
E é um escândalo atrás do outro. A sofisticação dos esquemas corruptos dá lugar, como nesse caso, a uma audácia brutal. No Pará, a PF investiga o deputado federal Antônio Doido (MDB), apontado como líder de um grupo criminoso. Segundo relatórios do COAF e da própria PF, a empresa da esposa do parlamentar, a JA Construções, recebeu R$ 633 milhões, em verbas públicas, em apenas quatro anos. Dessa mesma conta, assessores e policiais militares a seu serviço sacaram R$ 48 milhões em espécie.
Em um episódio surreal, durante uma operação, celulares que seriam de Antônio Doido, teriam sido jogados pela janela de um prédio na tentativa de evitar a apreensão pela PF.
A quantia e a forma como o dinheiro era movimentado – saques vultuosos em espécie – não deixam dúvidas sobre a destinação ilícita: pagamento de propina e lavagem de dinheiro.
Enquanto isso, o STF se prepara para julgar o primeiro caso concreto de desvio de emendas do orçamento secreto, o que deve ocorrer em março de 2026. Três deputados federais, Josimar Maranhãozinho, Pastor Gil e Bosco Costa (todos do PL), são acusados pelo Ministério Público Federal de organização criminosa e corrupção passiva. O esquema, detalhado em alegações finais às quais a imprensa teve acesso, era simples e criminoso: destinavam emendas a municípios do Maranhão e cobravam uma “taxa de retorno” de 25%.
Para fazer a cobrança os acusados, segundo apurado, usavam um agiota local, conhecido como Pacovan – posteriormente assassinado. Planilhas manuscritas encontradas no escritório de um dos deputados detalhavam a remessa de recursos e os valores da propina. Em mensagens trocadas, os parlamentares demonstravam paranoia com possíveis gravações, sugerindo encontros em locais “neutros” como uma lanchonete em um shopping. Era um assalto ao dinheiro público com agiotas, planilhas e prefeitos achacados.
Diante deste cenário de corrupção institucionalizada, qual tem sido a resposta de parte do Congresso Nacional? Não a de fortalecer os mecanismos de controle e apoiar as investigações, mas a de tentar amarrar e enfraquecer justamente a instituição que tem desvendado esses esquemas: a Polícia Federal.
A proposta do chamado “PL Antifaçção”, que tramita no legislativo, é a materialização deste projeto. Sob o pretexto vago de combater supostos abusos, o projeto, conforme análises publicadas na imprensa e em blog´s, busca limitar a autonomia operacional da PF, dificultar a realização de diligências, criar uma série de obstáculos burocráticos e, na prática, blindar poderosos contra as investigações.
Não é coincidência que a ofensiva contra a PF ganhe força no momento em que suas investigações começam a escalar do chamado “baixo clero” para as altas lideranças do Centrão. Esses políticos parecem não ver com bons olhos uma polícia federal independente, bem remunerada, bem aparelhada e destemida.
Uma PF atuante é um risco ao modus operandi que sustenta redes de poder há décadas. O “PL Antifaçção”, mesmo em sua sexta – e suavizada versão – continua sendo um “cerco contra a Polícia Federal”, uma “manobra para o enfraquecimento da PF”; e parte de uma “guerra interna pelo controle do combate ao crime organizado” – guerra na qual alguns preferem que o crime organizado, especialmente o de colarinho branco, saia vitorioso.
A tensão entre o STF e o Congresso, muitas vezes pintada como uma mera disputa institucional abstrata, ganha contornos concretos nesta seara. De um lado, ministros como Flávio Dino e Alexandre de Moraes, utilizando as ferramentas da Justiça, para responder a denúncias gravíssimas de corrupção. De outro, um parlamento que, em parte, se vê encurralado pelas descobertas e reage tentando deslegitimar o Judiciário e amordaçar a polícia.
A alegação de que há uma “aliança política do Supremo com o Planalto” serve de cortina de fumaça para ocultar o verdadeiro mote: o desejo de manter um controle absoluto e pouco transparente sobre o orçamento público, às custas da legalidade. É o “se banquetear as custas do povo”. E não o servir, como dissemos.
No Rio de Janeiro, de Cláudio Castro e Rodrigo Bacellar, mais um caso escabroso. Um desembargador foi preso pela PF por vazamento de dados ao Comando Vermelho.
Temos ainda a investigação sobre o Banco Master determinada pelo ministro Toffoli; as operações contra a corrupção e lavagem de dinheiro em vários estados, mostrando que a atuação da PF é ampla e vital.
A PF incomoda o crime organizado das milícias, o crime organizado do colarinho branco e o crime organizado que mistura ambos. Sem uma PF fortalecida, a sujeira da corrupção sistêmica permaneceria embaixo do tapete, e deputados corajosos como José Rocha, que ousam quebrar o código de silêncio, estariam ainda mais vulneráveis à retaliações e cassações.
A “Incomoda PF” é, na verdade, a Polícia Federal que funciona. Seu enfraquecimento não é um projeto de modernização ou aprimoramento do Estado Democrático de Direito. É um projeto de perpetuação da impunidade.
Defender a Polícia Federal, hoje, é defender a possibilidade de se descobrir a verdade. É defender que um agiota não seja o intermediário entre o dinheiro público e o bolso de um deputado. É defender que uma assessora não gerencie um esquema bilionário a mando de um presidente da Câmara, se forem comprovadas essas denúncias. É, em última instância, defender que o Brasil possa um dia respirar fora do pântano da corrupção institucionalizada. O preço do silêncio e da inação já sabemos qual é: R$ 633 milhões na conta de uma empresa familiar, R$ 48 milhões sacados em espécie, R$ 1 bilhão em ordens por WhatsApp e a perpetuação de um poder que se alimenta do que é de todos.
Esse artigo foi baseado em:
- https://www.diariodocentrodomundo.com.br/quem-e-antonio-doido-deputado-que-jogou-celulares-pela-janela-durante-operacao-da-pf/
- https://youtu.be/YraZyu6ahW8?si=2_5sIZyH8s9QfJsS
- https://youtu.be/q7SofzkCw84?si=QV8DI-961_tD-IIq
- https://www.instagram.com/reel/DLekqufoFSp/?igsh=dG9raHJ1YmJpcHJ6
- https://youtu.be/lMZ0aBMkIKI?si=ngM5T5154reG0AUR
- https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2025/12/pf-deflagra-operacao-para-combater-corrupcao-e-lavagem-de-dinheiro-1
- https://www.migalhas.com.br/quentes/446493/pf-prende-desembargador-por-vazamento-de-dados-ao-comando-vermelho
- https://www.cartacapital.com.br/justica/toffoli-manda-a-pf-realizar-diligencias-urgentes-no-caso-do-banco-master/
- https://politicaemdebate.org/2025/11/30/o-pl-antifaccao-e-o-cerco-contra-a-policia-federal-quem-teme-a-verdade/
- https://politicaemdebate.org/2025/11/19/as-manobras-no-pl-antifaccao-e-o-enfraquecimento-da-pf/
- https://politicaemdebate.org/2025/12/11/a-guerra-que-nao-se-ve-o-combate-interno-pelo-controle-do-combate-ao-crime-organizado/
- https://youtu.be/h8HA7STuy1A





