Feminicídio no Brasil: A Violência que Persiste

“Não são monstros e nem psicopatas !! São homens !! e estão nos matando”

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Por PolitikBr I Brasília, Em 08/12/2025, 19h:15, leitura: 6 min

Há lutas que definem a dignidade de uma sociedade. O combate ao feminicídio é uma delas. Não se trata de estatística policial, de disputa ideológica ou de mais um assunto capturado pelo ciclo das redes sociais. Se trata do direito fundamental das mulheres — metade da população — de existir sem serem assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Ontem (07/12), em diversas cidades do Brasil, milhares de mulheres foram às ruas exigir algo que deveria ser óbvio: o fim dessa praga histórica que atravessa governos, classes sociais e ciclos econômicos.

O que os protestos revelam é o acúmulo da indignação e revolta diante de um cenário que não se altera na velocidade necessária. Mas também que nos obriga a observar algo que poucos querem discutir abertamente: como as políticas públicas — ou sua ausência — influenciaram o avanço ou retração da violência contra as mulheres durante diferentes governos.

A raiz do problema: violência estrutural, cultura patriarcal e o Estado que falha

Nenhum fenômeno social tão persistente quanto o feminicídio nasce por acaso. Ele é produzido por dinâmicas estruturais que atravessam a cultura, o cotidiano e as instituições. É a naturalização histórica da posse masculina sobre o corpo feminino. É a crença de que a mulher deve obediência. É a infantilização de meninas e adolescentes. É a leniência das estruturas policiais, jurídicas e políticas que, por décadas, tratavam agressões como “brigas de marido e mulher“.

A Lei Maria da Penha, de 2006, rompeu com essa normalização ao estabelecer mecanismos reais de proteção à mulher, e a sua criação é reconhecida internacionalmente. Contudo, o feminicídio não desapareceu — e há razões para isso. A lei é apenas um instrumento; seu impacto depende da capacidade do Estado de implementá-la de forma eficaz, financiá-la e fortalecê-la ao longo dos anos.

É aqui que a comparação entre governos se torna fundamental — não para fins partidários, mas para compreender como escolhas políticas moldam territórios de vida e morte.

O período dos governos do PT: institucionalização de políticas de gênero e redução inicial da letalidade

Durante os governos Lula e Dilma, a agenda de enfrentamento à violência contra a mulher encontrou respaldo institucional. Houve criação e expansão de casas-abrigo, delegacias especializadas, centros de referência, pactos federativos de enfrentamento e campanhas de larga escala sobre a violência doméstica.

Dados do Mapa da Violência (IPEA/2015) mostravam que, embora a violência permanecesse alta, havia tendência de estabilização e, em alguns estados, redução das mortes.

O investimento direto em políticas de gênero cresceu, e isso se refletiu em maior visibilidade, mais denúncias e uma estrutura mais sólida de proteção. Não se tratava apenas de números: se tratava da construção de uma cultura institucional em que a violência contra a mulher era um problema de Estado, e não um detalhe moral privatizado dentro das famílias.

Essa estrutura, no entanto, seria profundamente atacada anos depois.

A chegada de Bolsonaro e a explosão da violência: quando o discurso legitima a brutalidade

O governo Bolsonaro (2019–2022) representou uma ruptura abrupta com a lógica de proteção às mulheres construída nas décadas anteriores. A retórica presidencial foi marcada por frases abertamente misóginas; pelo desprezo por políticas de gênero e pelo corte sistemático de verbas destinadas à programas de proteção da mulher. Não foi apenas omissão: foi desmontagem ativa.

E dados são fatos, não opiniões.

Sob Bolsonaro, o Brasil atingiu seus maiores índices históricos de violência contra as mulheres. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou aumentos consecutivos nas taxas de feminicídio, especialmente durante a pandemia, quando as políticas de apoio foram reduzidas ou descontinuadas. O isolamento social deixou as mulheres encurraladas dentro de casa com seus agressores, enquanto o Estado diminuía sua presença.

Esses números não podem ser descolados de uma cultura política que, a partir da cadeira presidencial, relativizou agressões, atacou minorias, ridicularizou denúncias e deu voz a uma masculinidade truculenta amplificada pelas redes sociais e por setores armados da sociedade.

O caso em que um soldado vinculado à tropa de proteção presidencial tenha cometido feminicídio é emblemático desse período. Não se trata de coincidência: se trata de sintoma.

O cenário atual: manifestações, dor acumulada e a cobrança por um Estado presente

As manifestações que tomaram Porto Alegre, Brasília e outras cidades Brasil afora, neste fim de semana, não surgiram do nada. Elas refletem um ciclo da escalada da violência contra as mulheres; amplamente reportada pela imprensa.

O Brasil assiste a novos casos de feminicídio com uma frequência intolerável, e a sensação coletiva é de urgência — não apenas de indignação moral, mas de exigência política.

Em Porto Alegre, as ativistas denunciaram a “nova escalada da violência”, chamando a atenção para os assassinatos recentes de mulheres, e cobrando o fortalecimento das políticas públicas.

Em Brasília, os protestos pediram maior presença do Estado, não apenas em campanhas simbólicas, mas na prática: delegacias funcionando 24h, abrigos, patrulhas especializadas, juizados preparados e orçamento consistente.

O recado é simples: discursos de respeito não bastam — e discursos de ódio custam vidas.

A lição que o país insiste em não aprender

Quando o Estado recua, o feminicídio avança. Quando a cultura é envenenada por figuras públicas que tratam mulheres com desprezo, isso se infiltra e se amplifica no ambiente social. Quando políticas são desmontadas, a violência deixa de ser evitada e volta a ser somente contabilizada.

Governos importam. Discurso importa. Orçamento importa.

O que a comparação entre os períodos analisados mostra é cristalino: onde há política pública, há contenção. Onde há hostilidade institucional, há massacre.

E, no entanto, o que se viu ontem não foi apenas resistência: foi um grito. Um grito vindo de vozes judiadas, maltratadas, silenciadas por anos de complacência institucional e, muitas vezes, de descaso explícito do Estado. Eram mulheres carregando no corpo e na memória as marcas de uma violência que não cessa, exigindo não reconhecimento simbólico, mas ação concreta. Elas não pediam favores — cobravam aquilo que sempre lhes é devido: proteção, dignidade, vida.

Esse artigo foi baseado em:

  1. Brasil de Fato. “Após nova escalada de violência, mulheres tomam ruas de Porto Alegre pelo fim dos feminicídios”. 07 dez. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/12/07/apos-nova-escalada-de-violencia-mulheres-tomam-ruas-de-porto-alegre-pelo-fim-dos-feminicidios/
  2. Correio Braziliense. “Autor de feminicídio é soldado da tropa ligada à Presidência da República”. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2025/12/7308340-autor-de-feminicidio-e-soldado-da-tropa-ligada-a-presidencia-da-republica.html
  3. Agência Brasil (EBC). “Mulheres protestam contra feminicídio e pedem maior presença do Estado”. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-12/mulheres-protestam-contra-feminicidio-e-pedem-maior-presenca-do-estado
  4. https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/03/violencia-contra-mulher-2021-v5.pdf
  5. Governo Lula (2003-2010): resumo dos principais acontecimentos

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