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Por PolitikBr I Brasília, Em 22/11/2025, 16h:13, leitura: 6 min
A guerra na Ucrânia, um dos conflitos mais devastadores do século XXI, parece se aproximar de um ponto de virada decisivo – não através de uma vitória militar clara, mas por meio de uma negociação de bastidores que expõe, de forma crua, as realidades do poder global.
Relatos amplamente divulgados pelas mídias, descrevem um plano de paz de 28 pontos, secretamente negociado entre o presidente Donald Trump e o presidente Vladimir Putin, e agora apresentado ao Presidente Volodymyr Zelensky, como um fato consumado; um ultimato disfarçado de proposta.
Segundo divulgado, Trump teria dado a Zelensky até a próxima quinta-feira para aceitar um acordo que, na prática, consagra a rendição estratégica da Ucrânia, sob pena dos Estados Unidos não mais compartilharem informações de inteligência e continuarem a fornecer munições e armamentos, vitais ao esforço de guerra ucraniano.
Os termos do acordo, basicamente, são as máximas exigências do Kremlin postas na mesa, e incluem: a redução pela metade das forças armadas ucranianas; o reconhecimento formal da anexação russa da Crimeia, Luhansk e Donetsk; o “congelamento” da linha de frente nas regiões de Kherson e Zaporizhia (o que significa a cessão permanente de mais território); e a renúncia definitiva da Ucrânia à adesão à OTAN.
Esta não é uma diplomacia de boa-fé; é a geopolítica da coação. Zelensky se encontra encurralado no que ele próprio descreveu como “um dos momentos mais difíceis da nossa história”, confrontado com a “escolha muito difícil” entre “perder a dignidade ou um parceiro-chave” – os Estados Unidos.
A declaração de que – “eu não vou trair a Ucrânia” – soa como um grito de impotência e de desespero, perante uma opção impossível: a capitulação negociada por seu mais importante aliado ou o abandono à própria sorte, o que, certamente, pode ser traduzido em completo colapso militar frente a um adversário muito mais poderoso e preparado para a continuidade da guerra.
Mas, continuar a guerra, que já se sabe perdida, tem lógica? Os números do campo de batalha mostram mais de 2.000.000 de baixas ucranianas e a quase completa destruição de toda a capacidade industrial e infra estruturas da Ucrânia. É um autêntico massacre. A destruição sistemática do poder de reação de uma nação. Não faz sentido isso.
A raiz deste dilema remonta a 2014, com a derrubada do governo pró-Rússia de Viktor Yanukovych – uma revolução abertamente financiada pelos Estados Unidos – e a subsequente anexação russa da Crimeia, em resposta ao fato. O conflito no Donbass, que se seguiu, foi a fagulha que, alimentada por anos de tensões geopolíticas, explodiu na invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022.
Após mais de três anos de conflito, a Rússia controla atualmente entre 25% a 30% do território ucraniano. Esta área não é apenas terra; é o coração industrial e o celeiro de recursos da nação, incluindo o crítico complexo nuclear de Zaporizhia. A perda permanente destes territórios, tal como proposta no plano, não seria apenas uma mutilação geográfica, mas uma sentença de pobreza e dependência perpétuas para uma Ucrânia pós-guerra.
A retórica de campanha de Donald Trump, que prometia acabar a guerra “em 24 horas”, foi campanha de marketing, inviável; mas que agora pode estar prestes a se materializar, não por um acordo diplomático – que se diga de passagem nunca interessou aos líderes europeus aceitarem – , mas numa negociação direta com o agressor, à margem do agredido e dos seus parceiros europeus.
Esta abordagem da realpolitik, pelo mais forte, foi recebida com entusiasmo por Moscou. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que “a margem para tomar decisões está diminuindo”, pressionando ainda mais Zelensky.
Por outro lado, o presidente Putin afirmou que o documento americano “pode servir de base para um acordo de paz definitivo” – a mais clara indicação de que o plano atende, em grande medida, aos seus objetivos de guerra.
O acordo secreto costurado entre os Estados Unidos e a Rússia pegou os aliados europeus de surpresa. Os líderes da Alemanha, da França e do Reino Unido reafirmaram o seu “apoio incondicional” a Kiev mas, de forma cautelosa, evitaram criticar abertamente o plano americano, salientando que “em qualquer situação, a Ucrânia deve manter a sua capacidade de se defender“.
A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi mais direta: “Nada pode avançar sobre a Ucrânia sem a Ucrânia“.
A União Europeia está, segundo as reportagens, trabalhando em uma “contraproposta” que exigiria um cessar-fogo imediato com base nas linhas atuais, mas “sem ceder nenhum novo território” – uma posição que se choca frontalmente com a realidade no terreno e com o plano Trump-Putin. Essa posição reativa dos líderes europeus é sempre reprisada, pois sabem que jamais seria aceita por Putin.
A resistência à paz, europeia, no entanto, é frequentemente vista, e com razão, como uma tentativa de prolongar um conflito cujo fardo principal não recai sobre Bruxelas, Berlim, Paris ou Londres, mas sobre o povo ucraniano. O Primeiro-Ministro húngaro, Viktor Orbán, desde muito tempo, expressa essa crítica, e agora afirma que “Trump quer encerrar o conflito ucraniano, enquanto a União Europeia busca prolongar as hostilidades“. Isso é fato.
O cenário que se desenha é sombrio. Zelensky, enfraquecido internamente por escândalos de corrupção e pela exaustão da guerra, é pressionado por todos os lados: por Trump, que oferece um abraço de afogamento; por Putin, que exige – implicitamente – a rendição; e por uma Europa que, embora solidária, não tem o poder ou a vontade para alterar a correlação de forças no terreno. O apelo de Zelensky por uma “paz verdadeira e digna” soa como um eco distante, onde as armas da pressão econômica e da pressão militar são as únicas com poder de veto.
O acordo secreto entre Washington e Moscou não é um plano de paz; é a certidão de óbito da Ucrânia como um Estado soberano e viável nas suas fronteiras pré-2014. É a consagração de que, no tabuleiro geopolítico, os peões podem ser sacrificados em troca de um entendimento entre os reis. O prazo até quinta-feira não é para deliberar; é para capitular.
Esse artigo foi baseado em:
- Trump quer encerrar conflito ucraniano enquanto UE busca prolongar hostilidades, diz premier húngaro” (21/11/2025)
- https://noticiabrasil.net.br/20251121/45407326.html
- Mídia: Trump aprova plano de paz na Ucrânia” (20/11/2025)
- Plano dos EUA de paz na Ucrânia prevê saída do país do domínio russo, revela mídia” (21/11/2025)
- https://youtu.be/RF3Q4iz-hxE?si=ShLfNRwMDwY-FjJm
- https://youtu.be/K7Vgp9cNFz0?si=wHkxi7X-mY-b1dWu