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Por PolitikBr I Brasília, Em 08/11/2025, 10h:49, leitura: 8min
Zohran Mamdani conquistou, na última terça-feira (4/11), uma das vitórias mais significativas dos democratas, especialmente nesse momento de confronto com os republicanos e Trump, em plena crise do shutdown.
Com apenas 34 anos, Mamdani, muçulmano e declarado socialista democrático, foi eleito prefeito de Nova York, superando por ampla margem seus principais adversários: o ex-governador Andrew Cuomo, democrata, mas que nesse pleito concorreu como candidato independente, e o republicano Curtis Sliwa, que levou uma “surra”.
Com 91% das urnas apuradas, Mamdani já havia obtido a maioria de 50,4% dos votos, enquanto Cuomo alcançava 41,6% e Sliwa, 7,1%. Essa eleição não só marca a ascensão de um perfil político renovado na maior cidade dos Estados Unidos, mas também simboliza um claro distanciamento do establishment tradicional, não só do Partido Democrata, mas da política americana.
Com a vitória, Mamdani quebrou paradigmas em uma das maiores cidades do planeta, sinalizando uma mudança geracional e ideológica profunda. A sua ascensão não se limita à representação da diversidade: ela encarna a ruptura com a política tradicional das velhas oligarquias, e do cansaço com o viés econômico neoliberal, responsável por concentrar cada vez mais a riqueza na mão de poucos, em detrimento da maioria, estressando a sociedade e gerando milhões de pobres e paupérrimos que vivem às custas de programas assistenciais do Estado; uma contradição em si, mostrando como é nefasto o neoliberalismo.
O que se vê nos Estados Unidos é um processo de exaustão e contínuo descontentamento dos setores populares, que acabou decisivamente a favor da eleição de Trump frente a Biden, mas que agora lhe cobra o mesmo preço, com a acachapante derrota sofrida pelos republicanos, não somente em Nova York.
Jeffrey Sachs, um respeitado economista e professor, ao comentar sobre essa eleição, não escondeu o significado histórico do evento: a ascensão de Mamdani marca o esgotamento do modelo neoliberal que, por décadas, corroeu o ideal de justiça social nos Estados Unidos.
Não se trata de um simples revezamento entre elites partidárias. É o prenúncio de um choque estrutural entre duas visões de mundo — uma que insiste na primazia do capital e da supremacia étnica, e outra que reivindica dignidade humana e redistribuição como princípios fundamentais da verdadeira democracia. O que lhe dá real sentido.
O professor Sachs acentua que a vitória de Mamdani reflete o desejo de justiça econômica, redistribuição do poder e acesso universal a serviços essenciais, em um momento em que a desigualdade econômica em Nova York cresceu de forma escandalosa.
Nas últimas décadas, Nova York simbolizou o ápice da desigualdade. O mesmo solo que sustenta os arranha-céus de Wall Street abriga filas de famintos, desalojados e trabalhadores precarizados.
O que Mamdani fez foi devolver à palavra “radical” seu verdadeiro sentido: ir à raiz dos problemas. Sua campanha por creches públicas, mercearias municipais e moradia acessível não soava revolucionária — soava óbvia, humana, necessária. A vitória eleitoral não foi um desvio do sistema: foi o grito de uma população que se recusa a continuar invisível.
Sachs lembra que a força de Mamdani vem daquilo que o neoliberalismo destruiu — o senso de comunidade. Ele fala por uma geração que já não acredita que o “mercado” resolverá as contradições que ele próprio criou. Uma geração que cresceu entre crises bancárias, pandemia e guerras culturais, e que já não se impressiona com o discurso vazio da “meritocracia”.
A vitória de Mamdani representa uma rejeição não apenas a figuras, mas a um sistema político-ideológico que se retroalimenta da exclusão e do clientelismo, mantendo um modelo de governança baseado em transações e privilégios. Nesse sentido, Mamdani não é um radical utópico, mas um realista político que fala em responder às demandas de uma população cansada do abandono das políticas públicas, fruto da falência do neoliberalismo; e que vem impulsionando a extrema direita mundo à fora.
Trump e o confronto à vista
A ascensão de Mamdani tem potencial político catalítico, que vai além da esfera municipal, e, portanto, desde a sua postulação à prefeito de Nova York, já vinha provocando reações iradas de Trump que o vê, acertadamente, como um perigo a sua forma de governar, isto é, sacrificando os mais necessitados da sociedade, com os profundos cortes fiscais, em programas de assistência social, à lá Milei; e privilegiando os ricos; uma marca da extrema direita.
Trump emprega, antecipadamente, a velha tática do medo: demonizar o diferente para galvanizar os ressentidos.
Trump nunca falou à Nova York — falou contra ela, transformando a maior metrópole americana em bode expiatório da própria falência moral de seu governo.
O que está em jogo, como bem observa Sachs, não é apenas um embate partidário, mas um teste institucional. Quando um presidente ameaça punir uma cidade por sua escolha democrática, o federalismo americano — base da própria república — é colocado em xeque.
Trump governa pela coerção, pela chantagem e pelo espetáculo. Ele não busca governar: busca dominar. O discurso de “lei e ordem” é apenas o verniz de um autoritarismo travestido de populismo. Mas a história mostra que tais atos de coerção frequentemente se voltam contra quem os pratica. Quanto mais se tenta asfixiar uma ideia justa, mais ela se fortalece.
Para Trump, Mamdani não é o legítimo recém-eleito, mas uma ameaça radical socialista, capaz de desestabilizar os “valores” que ele jurou defender.
Ao ameaçar cortar verbas federais essenciais para o funcionamento da cidade — que dependem enormemente desses recursos — Trump sinaliza que instrumentalizará o aparato estatal para punir um adversário político local. E essa ameaça de Trump não é a primeira. Ele já vem fazendo isso contra Estados e prefeituras governadas por democratas, desde o início desse novo mandato.
A cidade como trincheira democrática
Nova York, nesse contexto, se torna uma trincheira moral. Mamdani, em sua juventude e coragem, simboliza a resistência das cidades contra a centralização autoritária do poder federal. É a reedição moderna do embate entre o poder local e a tirania imperial.
Como observou o professor Sachs, a tentativa de sufocar Mamdani pode gerar um movimento de cidades insurgentes, solidárias entre si, articulando o que ele chama de “federalismo urbano” — uma aliança horizontal de municípios progressistas que se contrapõem à dominação vertical de Washington. Em outras palavras, o início de uma descentralização democrática real, nascida do embate com o autoritarismo.
O confronto entre Mamdani e Trump transcende a eleição: é uma batalha sobre o futuro da democracia americana. Pressupõe a disputa entre um modelo pluralista, inclusivo e diversificado — que Mamdani simboliza — e uma visão autoritária e excludente, que Trump encarna.
O espelho de uma nação dividida
O confronto entre Trump e Mamdani é o retrato de duas Américas que já não se reconhecem. De um lado, a urbana, multirracial, conectada, cosmopolita; de outro, a rural, branca, ressentida e presa a um passado idealizado. Trump manipula o medo da mudança e a nostalgia de um tempo que nunca existiu — o da “América pura”. Mamdani, por sua vez, encarna a transição inevitável: a de uma nação que se redefine não pela cor ou origem da sua pele, mas pela dignidade de sua causa.
O perigo, contudo, é que a esperança que a população deposita em Mamdani seja transformada, pela mídia conservadora, em um espantalho — o “experimento socialista que falhou, caso ele fracasse”. A manipulação do fracasso é uma das armas mais sofisticadas do autoritarismo moderno. Sachs alerta que o sucesso de Mamdani dependerá menos da economia e mais da narrativa: quem controla o discurso, controla o destino político.
Uma escolha civilizatória
O embate entre Trump e Mamdani mal começou mas já ressoa alto. De um lado, o discurso autoritário e do medo; do outro, o grito – em desafio – em busca de justiça. Um representa a fossilização de uma elite que teme perder privilégios; o outro, a insurgência de uma geração que se recusa a aceitar a desigualdade como fatalidade. Quando o cidadão comum “acorda”. Se dá conta da brutal exclusão social em que vive anestesiado, isso é revolucionário: derruba governos. Se cria uma “nova ordem”.
O significado para a política americana
A vitória de Mamdani destaca a emergência de um novo campo político dentro dos Estados Unidos, especialmente na ala progressista do Partido Democrata, até então marginalizada. A chamada “Nova Esquerda (New Left)“, representada por políticos como Bernie Sanders e agora pelo jovem Mamdani, e que tem potencial para ocupar um papel central na disputa nacional, trazendo à tona demandas por justiça social efetiva e renovação política geracional.
Esse renascimento progressista ocorre em um momento em que os Estados Unidos enfrentam desafios internos profundos, que alimentam narrativas populistas e divisivas. A estratégia de Trump de usar a polarização cultural para justificar políticas autoritárias. O confronto entre Mamdani e Trump simboliza a luta contínua entre inclusão e exclusão, diálogo e coerção.
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