Cláudio Castro: Entre a Perda de Mandato por Corrupção Eleitoral e a Chacina como Palanque

Cláudio Castro: Entre a perda de mandato por corrupção eleitoral e a chacina como palanque

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Por PolitikBr I Brasília, Em 04/11/2025, 19h:56, leitura: 7 min

Há momentos na história de um país em que a hipocrisia institucional atinge tal grau de cinismo que a barbárie passa a ser aplaudida como virtude. O Rio de Janeiro vive esse momento.

O governador Cláudio Castro, acusado de corrupção eleitoral, enfrenta hoje um julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode cassá-lo e torná-lo inelegível. Mas, enquanto aguarda o veredito, fez da morte política uma arma literal: transformou o Estado em palco de uma chacina de proporções inéditas, nos Complexos do Alemão e da Penha, que deixou mortos 130 supostos traficantes e 4 policiais.

A coincidência entre o julgamento de Castro e a operação talvez não seja fortuita. O massacre veio na hora exata para tentar reverter, com sangue e manchetes, a erosão de sua imagem pública.

“As manchetes dos jornais falaram em “sucesso da operação”, e o Datafolha revelou que 57% dos moradores do Rio aprovaram a chacina. Já o Correio Braziliense mostrou que 52% da população se sente agora menos segura do que antes. Uma contradição flagrante. O retrato de um povo aterrorizado, mas condicionado a aplaudir o terror.” (PolitikBr)

O julgamento de Castro por corrupção eleitoral

Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, Cláudio Castro utilizou o aparelho do Estado para financiar sua campanha de reeleição em 2022, criando uma máquina paralela de cabos eleitorais e funcionários fantasmas, que drenou R$ 248 milhões em dinheiro vivo, sacados na boca do caixa.

A fraude foi sofisticada. A Fundação Ceperj e o Centro de Estatísticas e Formação de Servidores Públicos foram transformados em cabides de emprego eleitoral, distribuindo contratações a aliados políticos.

A jornalista Mônica Bergamo revelou que a ministra Isabel Gallotti, relatora do processo no TSE, deve votar pela cassação de Castro por abuso de poder econômico, acompanhada pela presidente Cármen Lúcia e pelos ministros Floriano de Azevedo Marques e Estela Aranha.

O caso é tão robusto que, como destacou o jornalista Reinaldo Azevedo, “trata-se de um dos episódios mais escancarados de abuso de poder político da história eleitoral brasileira”. Ele lembrou que a prática foi tamanha que o governador de Roraima, Antonio Denarium, cassado pelo mesmo motivo, “parece aprendiz diante da audácia de Castro”.

Reinaldo lembrou:

É saque na boca do caixa, dinheiro vivo, ao arrepio de qualquer controle. Um escândalo que expõe a promiscuidade entre poder político e dinheiro público.”

Mas há um detalhe incômodo: o TRE-RJ absolveu o governador por 4 votos a 3, aceitando o argumento de que o caso seria “mero ato de improbidade administrativa”, e não crime eleitoral. Como ironizou Leonardo Sakamoto, o tribunal “não discutiu se houve a sacanagem — mas se o governador obteve prazer com ela”. Ele não podia ter sido mais direto.

Sakamoto chamou de “bizantina” essa tentativa de distinguir a intenção da consequência, e resumiu:

“Houve desvio de dinheiro, houve uso eleitoral do dinheiro, houve fraude. Só se discute se isso garantiu ou não a vitória. É ridículo. Pessoas no Brasil já foram cassadas por muito menos.”

A operação que virou palanque: o cálculo da morte

Com o julgamento ocorrendo hoje (04/11) no TSE, e com Cláudio Castro respaldado pelo apoio popular, será que não haverá um pedido de vista de algum ministro? Ou que mesmo a maioria dos ministros siga o veredito do TRE? Arquive o processo? Tudo é possível; em especial o pedido de vistas. Assim, o governador ganharia tempo, surfando no saldo oficial de seu “sucesso”: 134 mortos.

Nesse cálculo de quem ganha ou perde, o jornalista Josias de Souza revelou que “a identificação dos corpos da chacina mostrou que pelo menos 17 deles não tinham qualquer ficha criminal”. E o próprio deputado Otoni de Paula, um dos aliados mais fiéis de Castro e figura central no bolsonarismo fluminense, admitiu publicamente que 4 das vítimas não tinham ligação alguma com o tráfico de drogas. Isso pode influenciar os ministros? É um fator que agora – vindo a luz – pesa sobre Castro: a morte de inocentes. Qual ministro quer manchar a sua reputação “passando pano” para um descalabro desses? Assassinatos extra judiciais de inocentes ou, presumivelmente, inocentes?

Josias foi mordaz:

Pelo critério de extermínio do governador, todos os suspeitos merecem morrer. Se essa mesma lógica fosse aplicada a ele, Cláudio Castro estaria em apuros. Afinal, é suspeito de corrupção, de fraude, de desvio de verba pública. Pela regra dele, também mereceria a execução sumária.”

A fala é mais do que provocação: é denúncia. Castro usa a morte como argumento político e a polícia como instrumento de marketing. Quando a legalidade ameaça, o sangue se torna ferramenta de distração coletiva.

Favorecimento às milícias e o dossiê aos EUA

Paralelamente à operação, emergiu um fato ainda mais grave. Em meio às denúncias de corrupção, Cláudio Castro enviou aos Estados Unidos um relatório pedindo que o Comando Vermelho (CV) fosse reconhecido como organização terrorista.

O documento, entregue pelo senador Flávio Bolsonaro, como revelou a Agência Pública, busca convencer Washington a adotar sanções antiterrorismo contra facções cariocas — um gesto diplomático inédito e de duvidosa legalidade. Mas a questão é: por que o pedido não incluiu as milícias? Elas hoje também são acusadas de estarem no “negócio das drogas“.

As milícias, que historicamente se dedicavam à extorsão e ao controle de serviços públicos e imóveis nas áreas sob seu domínio, passaram a atuar também como concorrentes e parceiros no tráfico de drogas em algumas regiões, especialmente onde disputam territórios com o Comando Vermelho. Há relatos claros de que milicianos vendem drogas, cobram taxas e até se aliam a facções para fortalecer seu poder.

Um estudo conjunto de instituições como a Fundação Getúlio Vargas e a Universidade de Chicago aponta que em 30% das comunidades controladas por milícias há comércio de drogas, além da prática constante de extorsão dos moradores, mostrando um portfólio de negócios criminosos compartilhado entre milícias e tráfico.

Entretanto, como apontou a reportagem do UOL, Castro tratou o Comando Vermelho como inimigo absoluto, mas silenciou sobre os grupos milicianos — compostos por policiais, ex-policiais e aliados políticos de seu governo.

Essas milícias vinham sendo expulsas das comunidades pelo Comando Vermelho, e a operação policial teria, segundo analistas, restabelecido o equilíbrio em favor das milícias, permitindo a retomada de territórios antes perdidos.

O jornalista Sakamoto fez a conexão explícita:

O governador, quando quer atacar o tráfico, ignora o contexto. Quando a Justiça vai julgá-lo, apela ao contexto para adiar o julgamento. É a política de dois pesos e duas medidas: bala para os pobres, recursos para os aliados.

O pedido de Castro aos Estados Unidos, – uma afronta ao ministério da justiça, – é um movimento político, em um momento em que o Brasil e os Estados Unidos buscam reatar relações, depois de todo o estrago causado por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.

Se trata de uma tentativa de dificultar o entendimento entre os dois países, depois do encontro, na Malásia, entre Lula e Tump; o que desagradou profundamente os extremistas daqui: Castro, Romeu Zema, Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro (o mensageiro), e outros menos cotados. Ou seja: um jogo sórdido contra o Brasil. À lá Eduardo Bolsonaro.

Entre o crime e o cálculo

O TSE, ao julgar Claudio Castro, na verdade, julga se chancela ou não um modelo torto e corrupto de se manter no poder.

Como lembrou Josias de Souza, “há provas abundantes, mas falta disposição”.

Há ministros que “querem mandá-lo para a mata” — como ele mandou centenas de jovens —, mas há também quem prefira “salvá-lo em nome da estabilidade política”.

Se o tribunal optar pela omissão, a mensagem será clara: no Brasil, a bala limpa o que o dinheiro suja.

Cláudio Castro é o retrato cruel de uma sociedade que naturalizou a violência e premiou a corrupção. Seu governo representa o encontro entre a milícia, a máquina eleitoral e a moral religiosa manipulada.

A operação que transformou a morte em aplauso é a mesma que tenta blindar o poder com sangue. E, quando o povo aplaude uma chacina, como escreveu o Política em Debate, “é sinal de que a sociedade está doente”.

A decisão do TSE definirá mais do que o futuro de um governador. Definirá se o Brasil seguirá sendo o país onde os corruptos comandam e os mortos sustentam o espetáculo.

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