Reinaldo Azevedo: Tarcísio enterra Bolsonaro vivo com elogios

Reinaldo Azevedo: Tarcísio enterra Bolsonaro vivo com elogios

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Por PolitikBr I Brasília, Em 01/10/2025, 20h:36, Leitura: 3 min

Jornalista Reinaldo Azevedo

O retorno de Reinaldo Azevedo ao jornalismo, após enfrentar um período delicado de afastamento por questões de saúde, ganha peso singular neste momento político brasileiro, marcado por cenas que misturam vaudeville e tragédia institucional.

Reinaldo retorna ao centro da arena, com uma interessante e perspicaz análise sobre o teatro político protagonizado por Tarcísio de Freitas, em sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro – condenado judicialmente – em prisão domiciliar. Não se trata de meras palavras: é o faro jornalístico de quem percebe a hipocrisia mesmo nos bastidores bem maquiados.

Raízes da Encenação Política

O encontro entre o governador de São Paulo e o ex-presidente — condenado a 27 anos e 03 meses de prisão por chefiar a organização criminosa que tentou um golpe de estado contra Lula e Alckmin, marca a consolidação de uma iconografia decadente. Bolsonaro, o “mito” agora “muso do cárcere domiciliar”, tem seus últimos traços de relevância política sepultados sob os sorrisos e afagos de Tarcísio, que parece entender o próprio futuro longe da tutela bolsonarista. “É como uma missa de corpo presente, só falta ler o obituário político” — dispara Azevedo, ao desnudar os laços que unem e, ao mesmo tempo, distanciam os dois.

O papel de Tarcísio é curioso: avesso – nos bastidores, não em aparições oportunistas em ataques ao STF para afagar o bolsonarismo – ao radicalismo explicitado por Bolsonaro, busca, na visita, uma espécie de canonização invertida do padrinho político, ciente de que a inelegibilidade do ex-presidente se estenderá até 2060 — uma sentença que ecoa não apenas no universo jurídico, mas, sobretudo, no sepulcro das aspirações da extrema direita de retornar ao poder por meio do “messias dos cercadinhos”. “O elogio, neste caso, é pá de cal. Quando Tarcísio enterra Bolsonaro com elogios, marca oficialmente o início do pós-bolsonarismo” — ironiza Reinaldo.

A visita performática

A visita performática foi carregada de simbolismo, pois Tarcísio, apesar da deferência, agiu com calculismo político digno de manual: ao exaltar Bolsonaro diante das câmeras, reconheceu involuntariamente o fracasso do modelo personalista. “Nada é mais cruel do que enterrar vivo quem já não pode se levantar. E Tarcísio empunhou a pá com a delicadeza de quem exibe status para os espectadores do necrotério político nacional” — afirma Azevedo, mirando nos bastidores do poder.

A situação de Bolsonaro representa uma anomalia inédita na República: pelo rigor da condenação, a impossibilidade de concorrer a qualquer cargo público até 2060, faz dele um fantasma político. “O Brasil agora observa o mito preso, inelegível e elogiado — um quadro digno de um país que vive entre o absurdo e o tragicômico” — resume Reinaldo, expondo a degeneração dos valores republicanos e a incapacidade da extrema direita de se reinventar sem a figura central do seu líder condenado.

Recolhendo os cacos

O campo da extrema direita (bolsonarista) nesse momento é nem sombra do que foi não faz muito tempo. Fragmentado e sem o magnetismo eleitoral de outrora, conserva seu poder de atração – somente – para governadores que pretendem disputar espaço nacional, mas que já começam a recalibrar os seus discursos. “Sai o mito, entra o cálculo; sai a bravata, entra o sorriso de velório” — ironiza Azevedo, ao refletir sobre o futuro do conservadorismo radical num Brasil em que a elite política corre para reconstruir pontes sobre escombros ideológicos.

A visita de Tarcísio foi sintoma e não remédio, revelou o jogo duplo entre os atores políticos que se equilibram entre a vontade popular e o temor do rigor judiciário. “Se o futuro depende de quem enterra ou de quem é enterrado, ao menos saberemos quem são os coveiros da velha política” — conclui Azevedo, deixando ao leitor o amargo — e elegante — sabor da análise crítica.

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