Trump diz que abraçou Lula na ONU: “Ele gostou de mim e eu gostei dele”. Quem acredita?
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Por PolitikBr I Brasília, Em 23/09/2025, 17h:42, Leitura: 3 min
Nas relações internacionais há gestos que valem mais que discursos. Assim foi o breve e inesperado encontro entre Donald Trump e Luís Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da ONU, marcado por um abraço formal nos bastidores, e declarações cordiais do presidente americano. Para quem acompanha os arranca-rabos diplomáticos, o episódio parece quase surreal, dado o histórico de sanções, tarifações e ameaças que compõem a recente fase entre o Brasil e os Estados Unidos.
Raízes e contexto desse gesto
Trump, até poucas semanas atrás, impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros e patrocinou sanções duríssimas à autoridades nacionais, incluindo 8 ministros do STF, ao procurador geral da republica e até à esposa do Ministro Alexandre de Moraes. O clima entre os dois países está no pior momento em mais de um século: com o Brasil sendo um dos líderes e fundador do BRICS, pela busca de uma nova ordem mundial sem o dólar no centro; e o governo Lula se mantendo firme — não cedendo às chantagens tarifárias, e sim abrindo novos mercados para os produtos e serviços brasileiros; e fazendo novas alianças no Oriente Médio, na Ásia e na África.
No interior desse caldeirão geopolítico, os EUA talvez tenham se dado conta que se isolar do Brasil só favorece a China, a Rússia e ainda estimula mais e mais parceiros emergentes a se aliarem ao BRICS, que se sofistica cada vez mais criando mecanismos plurais econômicos, de trocas comerciais, culturais, de financiamento intra bloco, e que cresce a olhos vistos todos os dias.
Trump parece perceber que ao demonizar Lula também polariza o debate internacional, e que o resultado é a aceleração da substituição do dólar como principal moeda de trocas; favorecendo a outras como o yuan e o rublo, ou mesmo uma moeda comum do BRICS, em processo de gestação, perdendo, dessa forma, seu principal poder de barganha geopolítico e até comercial. O gesto do abraço, portanto, é mais estratégico do que sincero, buscando reabrir publicamente um canal para negociações.
Da mesma forma talvez Trump tenha entendido que para fazer frente ao crescimento e à sofisticação dos interesses e negócios chineses na América Latina, a melhor tática seja a da cooperação e não da coerção, da confrontação, que já se viu que não funciona.
Fatores, consequências e efeitos
Não se trata nada além do que uma sinalização, mas que certamente foi bem recebida por todos do BRICS: o presidente brasileiro manteve sua posição firme, defendendo em seu discurso na Assembleia da ONU o multilateralismo, a soberania nacional, defendendo a lisura do processo judicial que levou à condenação do ex-presidente Bolsonaro a 27 anos e 03 meses de prisão, e clamando pela necessidade do estabelecimento de novas regras internacionais.
O efeito imediato de um simples abraço é muito maior do que se possa imaginar. Internamente, a aproximação entre Trump e Lula é péssima notícia para os extremistas de direita (bolsonaristas): Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e Jair Bolsonaro que o digam.
Eles perdem o discurso fácil do “antagonismo Brasil x EUA” e veem ruir suas estratégias de usar Trump como agente de sabotagem ao governo nacional. Não é segredo que a ala oposicionista aposta na inimizade entre os dois países como instrumento de chantagem e golpe — e agora se veem refém da aproximação diplomática entre os chefes de Estado.
Perspectiva integrada: riscos e oportunidades
O episódio pode inaugurar uma fase menos belicosa nas relações bilaterais, sem ilusões de amizade plena ou alianças ideológicas. Lula mostrou com a firmeza de suas palavras e ações, que o respeito internacional não se conquista com subserviência — e sim, com firmeza e decência institucional. Trump, pragmático, toma a iniciativa não por convicção, mas por necessidade geopolítica. No fundo, é a política real se impondo sobre o teatro ideológico.
Talvez os patrocinadores internos tenham convencido Trump de que as tentativas de desestabilizar adversários por dentro sejam metas de mais longo prazo. Não sejamos ingênuos em imaginar que eles pensariam o contrário. Mas o establishment pode estar vendo que a situação começa a sair do controle dentro dos EUA, o que força a se admitir que estrategicamente, pelo menos nesse momento, há necessidade de se negociar com todos.
No plano internacional, o gesto de Trump sinaliza reconhecimento, mesmo que a contragosto, da liderança do sul global: ele reconhece que não há vitória possível isolando o Brasil, e menos ainda tentando dividir o BRICS, bloco cuja coesão só cresce em resposta à ameaças externas. O “abraço” é uma tentativa discreta, mas calculada de reaproximação. Não um convite à rendição de Lula porque Trump sabe que, ao contrário de Jair Bolsonaro, isso nunca funcionaria. Lula não é um Zelensky ou um líder submisso europeu, como Macron, que humilhou a França ao fazer provas à justiça americana que a esposa é uma “mulher legítima”. O episódio foi tanto trágico quanto ridículo: Macron, chefe de Estado de uma república laica e moderna, precisou legitimar em foro externo a identidade feminina da esposa — tudo para combater ataques torpes ligados à intolerância e à política do absurdo, alimentadas pela máquina ultra-conservadora mundial.
Você pode conferir essa história em vídeo aqui:
Esse artigo foi baseado em:
https://youtu.be/Emx8OUlnyvQ?si=y2yY8jWti6yXO9Zj
https://www.bbc.com/portuguese/articles/crkjl61z056o


