Desdolarização e a Migração do Swift para o CIPS

Desde 1944 com os Acordos de Bretton Woods  o dólar norte-americano vem sendo usado não apenas como moeda de referência internacional, mas como arma geopolítica — capaz de punir países, sufocar economias e ditar a pauta de aliados e adversários. Através de mecanismos como o sistema SWIFT, Washington impôs sanções a quem quisesse, congelou ativos, como por exemplo os da Federação Russa em 2022, e, em nome da “ordem internacional”, consolidou um poder de coerção que transformou sua moeda em verdadeiro “cetro” de chantagem de Estado da política global.

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Por PolitikBr I Brasília, Em 11/08/2025, 08h:55

Mas a maré está mudando. E desta vez não se trata apenas de discursos em fóruns internacionais ou declarações de líderes do BRICS. As mudanças estão ocorrendo na prática, nos contratos e nos sistemas de pagamento que movimentam bilhões.

Do varejo de óculos à geopolítica monetária

O caso mais simbólico e recente vem do setor privado brasileiro: a Chilli Beans, rede de óculos e acessórios, anunciou que não usará mais o dólar em suas negociações com a China. Todas as operações serão realizadas em yuan ou em moeda local, eliminando a dependência do dólar nas transações de importação.

À primeira vista, pode parecer apenas uma decisão comercial. Mas, no contexto atual, é um gesto político-econômico que ecoa além do varejo: menos dólar significa menos poder para Washington ditar regras via política monetária e sanções.

Banco brasileiro entra no sistema de pagamentos da China

No setor financeiro, o movimento é ainda mais nítido. O Banco Master acaba de aderir ao CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), o sistema chinês de compensação internacional criado como alternativa ao SWIFT.

Essa integração permite que o banco realize transações internacionais fora do alcance do controle norte-americano, usando o yuan como base e fortalecendo os canais financeiros paralelos ao sistema ocidental. Na prática, isso significa mais autonomia para as empresas e para os governos que queiram negociar com a China (e outros parceiros) sem medo de bloqueios arbitrários ou espionagem financeira.

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Brasil e China: acordos para fugir do dólar

Em 2023, durante missão oficial à China, o Brasil firmou acordos para ampliar o uso de moedas locais no comércio bilateral e consolidar mecanismos de compensação que dispensam o dólar como intermediário.

Nesse contexto, dois marcos importantes foram anunciados: Foi definido que a sucursal brasileira do Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) atuaria como clearing house para renminbi (yuan), viabilizando transações diretas entre reais e yuan, substituindo o dólar como intermediário; e que o Bank of Communications Bocom BBM, resultante da fusão do antigo BBM (Banco da Bahia) com o Bank of Communications, passava a adquirir o status de primeiro participante do sistema CIPS (China Interbank Payment System) na América do Sul .

Isso não apenas reduz custos cambiais como também fortalece a lógica da soberania econômica — algo que países submetidos ao “dólar como porrete” conhecem bem.

O próprio Pix, – do qual Trump se tornou “garoto propaganda” do sistema brasileiro para o mundo – a partir de setembro desse ano aceitará parcelamento – sistema já em experimentação por alguns bancos, como o Banco do Brasil – concorrendo diretamente com VISA, MASTERCARD e outros, e é um sinal de que, cada vez mais, o poder das empresas de intermediação americanas não mais poderão ditar regras e taxas de uso sem concorrência, como ocorre hoje.

Sob um prisma holístico, todos esses movimentos caminham na direção da desdolarização, da perda de importância do sistema Swift e, portanto, menor capacidade de pressão geopolítica e econômica por parte dos EUA e de seus parceiros ocidentais, sobre os países do sul global e do BRICS+;

A reação previsível de Washington

Qualquer movimento para enfraquecer o dólar como moeda nas transações internacionais é tratado pelos EUA como ameaça estratégica. E eles tem razão nisso. Afinal, se viciaram a coagir o mundo usando o dólar como arma geopolítica, bem como meio de exportar a sua ineficiência e inflação para o mundo pagar. O petróleo negociado fora do petrodólar, as criptomoedas descentralizadas, o avanço do CIPS e os acordos bilaterais em moedas locais são provas cabais que esse tempo de unipolaridade americana está definhando a olhos vistos.

Esse é um movimento não isolado. Da Rússia à Arábia Saudita, China, passando por Índia, Brasil, Irã, África do Sul e diversos outros países, a diversificação monetária deixou de ser teoria para se tornar prática — e cada transação feita fora do dólar é um tijolo a menos na muralha de poder econômico que os EUA ergueram no pós-guerra.

O inevitável

O abandono gradual do dólar como única referência comercial não é mais uma hipótese — é um processo em andamento. Empresas privadas, bancos e governos estão criando suas próprias rotas financeiras. Mais países e corporações estão buscando se distanciar dessa dependência perniciosa, nefasta.

O mundo não aceita mais que sua economia seja refém de um sistema controlado por uma única capital. E o que antes era impensável, hoje é questão de tempo.

Esse artigo foi baseado em:

Acordos de Bretton Woods – Wikipédia, a enciclopédia livre

CEO da Chilli Beans anuncia fim do uso do dólar em negociações com a China

Bancos brasileiros fecham acordos na China para facilitar transações sem uso do dólar

Banco Master adere ao sistema de pagamentos internacionais da China

Missão do Brasil na China tem acordos para compensação de transações sem uso do dólar

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