O Dólar Ruindo. Fim da “Exportação da Ineficiência” dos EUA para o Mundo

O Dólar ruindo. Fim da “exportação da ineficiência” dos EUA para o mundo

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Por Política em Debate I Brasília, Em 26/06/2025, 19h25

O dólar, outrora senhor absoluto das finanças globais, escorregou pelo ralo da história? Parece exagero? Preste atenção nos sinais. A maior dívida do planeta, superior a US$ 36 trilhões, é dos Estados Unidos. A confiança que sustentava essa montanha de papel pintado está derretendo, e a velha máxima de que “em tempos de crise o dólar é porto seguro” parece, agora, não fazer mais sentido.

Tradicionalmente, quando eclodia uma guerra — como as do Iraque ou do Afeganistão — os investidores corriam para o dólar e os títulos do Tesouro norte-americano. Mas desta vez foi diferente. Com a recente escalada entre Israel, Irã e EUA, o movimento esperado não aconteceu. Ao contrário: os investidores estão vendendo dólar, liquidando posições, abrindo mão do “porto seguro”. Com isso o ouro dispara nos mercados de metais. O agora “porto seguro”.

E isso é inédito em quase cem anos.

A rebelião dos países aliados: Ouro de volta para casa

Se os EUA fossem tão confiáveis, por que a Alemanha e a Itália estão exigindo de volta suas reservas em ouro depositadas no Federal Reserve, em Nova York? Medo? Desconfiança? Ambos. A Alemanha tem a segunda maior reserva do mundo, com um total de 3,3 mil toneladas. A Itália tem a terceira maior reserva do mundo com 2,2 mil toneladas de ouro e, custodiado no Federal Reserve de Nova York está o equivalente a US$ 245 bilhões, que os dois países querem de volta, por causa das incertezas criadas por Trump sobre a estatização do FED.

O Federal Reserve (FED) não é um banco central estatal, vale lembrar, mas um ente privado centralizador de bancos americanos. Esse pedido de repatriação é um tapa na cara da hegemonia americana. O Japão, que há décadas é parceiro fiel dos EUA, está trocando títulos do Tesouro de longo prazo por papéis mais curtos, tentando escapar da armadilha. Um movimento que revela pânico institucional. Até o Japão — que parecia incondicionalmente atrelado à órbita americana — está se afastando. E Israel, isolado e rodeado de inimigos, também já percebeu que está por conta própria.

A valorização do ouro nos mercados internacionais desde 2017, quando Donald Trump assumiu a presidência dos EUA, e desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia em fevereiro de 2022, reflete o papel do metal como porto seguro em tempos de incerteza econômica e geopolítica.

Evolução das cotações do ouro desde Trump

A partir de 2017, o ouro começou a se valorizar de forma consistente, impulsionado por fatores como a instabilidade das políticas comerciais dos EUA sob Trump, tensões com a China e mudanças nas taxas de juros pelo Federal Reserve. O metal precioso passou a ser visto como proteção contra volatilidade e riscos sistêmicos, atraindo fluxos de investidores em busca de segurança diante de uma conjuntura global incerta.

As guerras comerciais iniciadas por Trump, especialmente com a China, aumentaram a aversão ao risco e estimularam a busca por ouro como reserva de valor. Agora em 2025, declarações de Trump pressionando o Federal Reserve por cortes de juros e críticas ao presidente da instituição elevaram ainda mais a incerteza, levando o ouro a superar a marca histórica de US$ 3.500 por onça-troy em abril de 2025. Desde o início de 2025, o ouro já subiu cerca de 8,86%, acumulando alta de mais de 40% em 12 meses e registrando recordes históricos. E quando o ouro dispara é sinal de que o dólar está com problemas. Na verdade, um ataque sistêmico por todos os lados.

Impacto da guerra Rússia x Ucrânia

Com o início do conflito em 24 de fevereiro de 2022, o ouro voltou a ser intensamente procurado por investidores globais como proteção diante do aumento da incerteza e do risco sistêmico.

Nos primeiros dias após a invasão, o ouro subiu cerca de 2,6% em dólar e acumulou alta de quase 8% no ano, superando os US$ 2.000 por onça-troy, patamar não visto desde a pandemia. A guerra intensificou a busca por ativos seguros, já que a Rússia é um dos maiores produtores mundiais de ouro e as sanções econômicas sobre o país aumentaram a percepção de risco nos mercados globais. Em março de 2022, a valorização acumulada do ouro em 12 meses era de quase 12%, refletindo o aumento da demanda em meio à instabilidade.

Tendências recentes e perspectivas

O ouro atingiu seu recorde histórico em abril de 2025, superando US$ 3.500 por onça-troy, impulsionado tanto por fatores geopolíticos (guerra na Ucrânia, tensões no Oriente Médio) quanto por questões econômicas internas dos EUA (pressões sobre o Fed, dólar mais fraco). A demanda pelo metal segue elevada, já que bancos centrais e investidores institucionais buscam proteção em um cenário de inflação, riscos de recessão e conflitos prolongados.. Os analistas divergem sobre a continuidade da alta, mas o consenso é que, enquanto persistirem incertezas geopolíticas e econômicas, o ouro continuará valorizado como ativo de proteção.

O Yuan e a hora da virada

Enquanto isso, o Banco Central da China caminha no sentido de internacionalizar o Yuan Digital, através da criação de um Centro Internacional em Xangai, O objetivo dessa iniciativa é ampliar o uso global do yuan digital e fortalecer a presença da moeda chinesa em transações internacionais, integrando-a de forma mais efetiva aos mercados financeiros mundiais. O e-CNY, considerado uma das moedas digitais de banco central mais avançadas do mundo, passará a contar com uma estrutura dedicada para facilitar pagamentos transfronteiriços e oferecer uma alternativa aos sistemas tradicionais dominados por moedas estrangeiras, como o dólar americano.

Segundo Pan Gongsheng, presidente do Banco Central da China, a criação do centro faz parte de uma estratégia mais ampla para promover um sistema monetário internacional multipolar, reduzindo a dependência global de uma única moeda e aumentando a resiliência do sistema financeiro internacional. O centro em Xangai também busca modernizar as infraestruturas de pagamentos e mitigar riscos associados à politização e ineficiências dos sistemas tradicionais, como o SWIFT. Além disso, a iniciativa acompanha a expansão do sistema de pagamentos interbancários da China (CIPS), que recentemente passou a contar com a participação de grandes bancos estrangeiros, reforçando o papel do yuan nas liquidações internacionais.

Nas entrelinhas o recado é claro: o dólar não comanda mais nem o sistema financeiro e nem mais a maior parte do volume de trocas nas relações comerciais internacionais. A China lançou com sucesso um título verde soberano denominado em yuan na Bolsa de Valores de Londres, com juros mais baixos do que os títulos similares emitidos pelos EUA, e a demanda foi alta. O título, com valor de até 6 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 833 milhões), atraiu quase sete vezes mais em subscrições do que o valor inicial oferecido. O mundo está disposto, daqui para frente, a apostar na estabilidade chinesa, mesmo ganhando menos. Isso diz tudo sobre a decadência financeira e de poder dos Estados Unidos. Os inimigos do dólar devem ser gratos à Trump por tudo isso.

O tiro no pé de Trump

E como já frisamos, para apimentar ainda mais esse caldeirão, temos Donald Trump — que ameaça estatizar o Federal Reserve, incentiva o uso de stablecoins privadas (moedas digitais lastreadas em dólar) e bate de frente com Jerome Powell, presidente do Fed. O problema é que essas medidas, ao invés de reforçar o dólar, estão provocando a debandada geral da moeda americana.

Trump quer juros baixos — mas os mercados não confiam. Ele está desmontando as poucas estruturas que ainda davam respaldo à moeda americana. E líderes europeus, como Christine Lagarde (presidente do BCE), estão desesperados, pedindo a criação urgente do euro digital para frear o êxodo financeiro em direção às criptomoedas.

O castelo desmorona

O dólar não vai desaparecer. Mas perdeu sua vantagem injusta, como já dizia o presidente francês Charles de Gaulle. E sem essa vantagem, os EUA perdem tudo: o poder de atrair cérebros, financiar pesquisa, liderar em inovação tecnológica em setores críticos, impor sanções a adversários, e também deixam de transferir a sua ineficiência e a sua inflação para o restante do mundo.

Aliás, até em inovação tecnológica os EUA já não são líderes. de acordo com o ASPI Critical Technology Tracker, a China lidera em 37 das 44 áreas estratégicas de tecnologia, demonstrando um domínio significativo em várias áreas de ponta, incluindo defesa, espaço, robótica, energia, meio ambiente, biotecnologia, inteligência artificial, materiais avançados e tecnologia quântica. 

Este domínio tem imensas implicações para a economia global e a geopolítica, com a China se estabelecendo como uma força dominante em tecnologia e inovação. A liderança da China em áreas como inteligência artificial e computação quântica, por exemplo, pode ter implicações significativas para o futuro da tecnologia e da economia global, conforme análises do ASPI. 

A vantagem tecnológica, bélica e linguística dos americanos já é passado. A inteligência artificial já permite conversar entre idiomas em tempo real — o inglês, que um dia foi arma geopolítica, virou só mais uma língua entre tantas. Até esse nosso blog é multilíngue. Esse conteúdo você pode ler nos principais idiomas.

Bem-vindo à nova ordem

O império do dólar foi sustentado por um esquema financeiro global comparável a um esquema Ponzi institucionalizado -uma operação fraudulenta sofisticada de investimento do tipo esquema em pirâmide . Agora, com a confiança derretendo, os alicerces estão ruindo. E o que restará dos Estados Unidos quando não puderem mais viver da impressora de dinheiro?

Compartilhe, comente, questione — o dólar já não é mais o que era. E o mundo, finalmente, começa a girar fora do eixo de Washington.

Fontes utilizadas nesse artigo:

Trump, o Fed e US$ 245 bilhões em ouro: Alemanha e Itália querem metal “de volta ao cofre” – NeoFeed

Ouro tem cotação recorde e supera 3,5 mil dólares – CartaCapital

Preço do ouro está em níveis recordes, mas é seguro investir nesse metal precioso? – BBC News Brasil

Ouro supera US$ 3,5 mil pela 1ª vez após ataques de Trump a Fed

Ouro em alta; criptomoedas em queda: entenda como o ataque russo afeta os mercados | Economia | G1

PBOC Launches International E-CNY Center In Shanghai To Bolster Digital Yuan – FinanceFeeds

China talks up digital yuan in push for multi-polar currency system | Reuters

China lança primeiro título soberano verde em yuans no exterior – Seu Dinheiro

DOLAR É DEFINITIVAMENTE ESCANTEADO E PERDE IMPORTÃNCIA NA ECONOMIA MUNDIAL. YUAN DIGITAL CHEGOU.

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