
Por Política em Debate, 23/04/2025, 19:22h (Brasília)
Enquanto o Vaticano se prepara para um dos conclaves mais importantes da história recente, um nome africano surge com força nas articulações do Colégio Cardinalício: Peter Kodwo Appiah Turkson, ganês, 76 anos, ex-presidente do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral e atualmente chanceler das Pontifícias Academias de Ciências. Mais do que um candidato, Turkson, se eleito, representará uma virada histórica, geopolítica e espiritual no comando da Igreja Católica.
Turkson pode ser o primeiro papa negro da era moderna — e apenas o quarto papa africano da história, todos os outros viveram no primeiro milênio, quando Roma ainda se confundia com o Império. Os três papas africanos foram:
- Vítor I (189–198 d.C.) – Nascido na província romana da África (atual Líbia/Tunísia);
- Melquíades (311–314 d.C.) – Natural da África romana, possivelmente de origem berbere;
- Gelásio I (492–496 d.C.) – Filho de pai africano e mãe romana, nascido em Roma.

Uma trajetória de fé e justiça
Ordenado sacerdote em 1975 e arcebispo em 1992, Turkson foi nomeado cardeal por João Paulo II em 2003. Desde então, tem sido presença frequente nos bastidores do Vaticano, com participação ativa nos conclaves que elegeram Bento XVI (2005) e Francisco (2013). Seu papel como consigliere do Papa Francisco, em questões sociais e ambientais, o credenciou como uma figura de continuidade na linha progressista.
Entre 2009 e 2021, Turkson presidiu órgãos centrais no combate à pobreza, à injustiça e ao colapso ecológico. Nos salões de Davos, em conferências da ONU e em missões globais, defendeu com firmeza uma “ecologia integral” — conceito também central na encíclica Laudato Si’ de Francisco.
Entre o respeito e o receio
A candidatura de Turkson, no entanto, encontra resistências. Setores conservadores da Igreja, tanto na Europa quanto dentro da própria África, veem com desconfiança suas posições mais abertas sobre direitos LGBTQ+ e migração, ainda que ele sempre tenha equilibrado o discurso com respeito às tradições culturais africanas.
Turkson não é um rupturista — é um moderado com firmeza moral. Fala fluentemente inglês, francês, italiano e alemão. Navega bem entre culturas e continentes. Representa, ao mesmo tempo, a universalidade da Igreja e sua dívida histórica com o Sul Global.
África: o novo centro do catolicismo?
Com mais de 250 milhões de católicos, um quarto de todos os católicos do mundo, o continente africano deixou de ser apenas campo de missão: é agora um polo de crescimento, resistência e fé viva. A eleição de um papa africano seria um reconhecimento geopolítico e simbólico de que a Igreja não pode continuar girando em torno da velha Europa.
Turkson, nesse contexto, é mais do que um nome. É um recado: o centro do mundo cristão está se deslocando — cultural, econômica e espiritualmente.
O conclave será decisivo
Entre os nomes mais cotados, estão também o italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e favorito dos diplomatas, e o filipino Luis Antonio Tagle, articulador da Igreja asiática e querido pelos reformistas. Mas Turkson, com sua trajetória sólida e origem simbólica, reúne atributos que desafiam o eurocentrismo da sucessão papal.
A questão é: o Colégio de cardeais — 80% dos quais foram escolhidos por Francisco — estará pronto para romper com 1.200 anos de tradição e eleger um papa negro? Se estiver, não será apenas um gesto histórico. Será um gesto de justiça.