Publicado em 24/03/2025, 10:50h

O blockchain é uma tecnologia de registro distribuído que permite a validação e o armazenamento de dados de forma descentralizada, segura e transparente. Ele elimina a necessidade de intermediários centrais, como bancos ou instituições financeiras, ao permitir que cada transação seja verificada por todos os participantes da rede por meio de consenso. Cada bloco de informações é criptograficamente vinculado ao anterior, criando uma cadeia imutável e auditável. Essa infraestrutura tecnológica não apenas garante integridade e confiança, como também oferece um novo paradigma para a gestão de ativos digitais, contratos e moedas.

Agora, imagine se essa tecnologia for adotada por países de blocos econômicos como o BRICS e a ASEAN em suas interações financeiras e comerciais. Isso poderá representar uma disrupção sem precedentes na arquitetura monetária global, centrada há décadas na hegemonia do dólar americano.

O BRICS, formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, passou por uma ampliação significativa. Em 2024, durante a cúpula de Kazan, o bloco formalizou a entrada de novos membros: Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e, a partir de 2025, Indonésia. Foi criada ainda a categoria de “países parceiros do BRICS”, que inclui Argélia, Bielorrússia, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Turquia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã. Países, como a Arábia Saudita, México, Senegal, Paquistão, manifestaram interesse formal em se integrarem ao grupo, ainda que em fases distintas de negociação e decisão política. Esta expansão não é meramente simbólica. Ela representa um realinhamento estratégico de países que controlam vastos recursos naturais, cadeias produtivas cruciais e populações numerosas.

ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) é composto por 10 países membros. Fundado em 1967 o grupo inicial incluía Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura e Tailândia. Posteriormente, Brunei aderiu em 1984, seguido pelo Vietnã em 1995. Em 1997, Laos e Mianmar entraram para o bloco, e em 1999, o Camboja completou a lista de membros atuais.

A organização mantém observadores como Papua-Nova Guiné e Timor-Leste. O bloco busca promover cooperação econômica, política e cultural entre os países da região.

Atualmente, mais de 80% das transações internacionais são liquidadas em dólar, e cerca de 60% das reservas cambiais globais estão denominadas nessa moeda . No entanto, entre os países do BRICS ampliado, há um movimento crescente de desdolarização. A China, por exemplo, fechou em 2023 um acordo bilionário para comprar gás russo em yuanes, e a Índia e a Rússia têm adotado o comércio bilateral, em rublos e rupias. Segundo dados do FMI e do Banco Mundial, os países do BRICS, somados aos novos membros e parceiros, já representam aproximadamente 45% da população mundial, 35% do PIB global ajustado por paridade de poder de compra, e controlam mais de 50% da produção global de petróleo, gás, trigo, arroz e minerais estratégicos como o lítio e o nióbio. Esses países detêm, juntos, ainda, mais de US$ 5,67 trilhões de dólares em reservas internacionais, de um total das reservas internacionais (ano 2023) estimado entre 11,5 e 12 trilhões de dólares.

Se esses países unirem suas forças em um sistema financeiro baseado em blockchain, podem tornar realidade uma moeda digital multilateral, lastreada em commodities reais e moedas locais, utilizando contratos inteligentes para eliminar intermediários e sanções políticas impostas por mecanismos ocidentais como o sistema SWIFT . Essa moeda digital, validada por uma blockchain soberana e descentralizada, permitirá que os países transacionassem diretamente, com total rastreabilidade e segurança, ao mesmo tempo em que enfraquecerão a dependência do dólar em suas balanças comerciais.

O impacto dessas mudanças será profundo, se realmente vierem a ocorrer. A menor demanda global por dólares pressionará a sua cotação, resultando em sua desvalorização e aumento da inflação interna dos Estados Unidos, pois a capacidade do país de importar bens a custo reduzido diminuirá. A confiança internacional nos títulos do Tesouro americano — atualmente considerados os mais seguros do mundo — será fortemente abalada, exigindo juros mais altos e maior rigor fiscal para manter o financiamento da dívida pública. Além disso, o principal instrumento de poder dos EUA — a capacidade de sancionar financeiramente países por meio de bloqueio de reservas ou exclusão do sistema SWIFT — perderá eficiência, já que os países terão uma infraestrutura alternativa de pagamentos eficiente e imune à interferências externas.

Esse cenário representará o fim daquilo que o economista francês Valéry Giscard d’Estaing chamou de “privilégio exorbitante” dos Estados Unidos: o poder de emitir a moeda que o mundo inteiro precisa, mesmo sem o correspondente esforço produtivo. Um sistema blockchain soberano, adotado por blocos como o BRICS e a ASEAN, com integração financeira regional, lastro real e interoperabilidade técnica, irá acelerar a transição para uma ordem global mais distribuída, onde múltiplas moedas coexistirão com valor determinado por consenso entre nações soberanas — não por imposição de uma superpotência.

Se essa coalizão persistir e amadurecer, é possível que, pela primeira vez desde Bretton Woodso acordo de 1944 que estabeleceu o dólar como referência cambial mundial —, a hegemonia do dólar encontre um rival à altura, não por meio de conflito armado, mas por inovação tecnológica e reorganização do poder econômico global.

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