Publicado em 28/03/2025, 11:35h

A ascensão da extrema direita em escala global não é um fenômeno acidental. Movimentos e líderes dessa corrente têm sistematicamente utilizado desinformação, difamação e manipulação religiosa como ferramentas estratégicas para conquistar eleitores, polarizar sociedades e consolidar poder. Essas táticas, muitas vezes mascaradas por discursos de “ordem” e “moralidade”, revelam uma guerra cultural que busca desestabilizar instituições democráticas e reescrever a realidade política.

A conquista do poder por grupos extremistas não é um fenômeno isolado no tempo. Da ascensão nazista à vitória de Donald Trump em 2016, e a de Bolsonaro em 2018, padrões de desinformação, difamação e manipulação emocional revelam uma constante fabricação de crises, para substituir a realidade por narrativas convenientes. Essas estratégias, adaptadas às tecnologias de cada época, mostram como a extrema direita (e outros grupos autoritários) reescrevem a verdade para controlar as massas.

Nazismo: O Manual Clássico da Propaganda

O regime nazista (1933-1945) foi um laboratório de manipulação em larga escala, com táticas que ecoam até hoje. Uma delas o Culto ao líder exploravam imagens de Hitler em cartazes, e discursos transmitidos por alto-falantes transformaram-no em uma figura messiânica, supostamente “restauradora da ordem”. No Brasil se tentou a mesma tática, e o símbolo dessa mobilização foi o sequestro das cores nacionais (o verde e amarelo) e uma tentativa de incutir no povo o conceito que o ex-presidente Bolsonaro era o novo. Uma “nova da política” distanciada do Centrão e de seus escandalosos casos de corrupção e clientelismo. Apesar de Bolsonaro já e estar, à época, na vida política há 27 anos, a maciça máquina da desinformação fez um vasto segmento do eleitorado acreditar no que era propalado à custa de muito dinheiro investido, em especial, via milhares de contas falsas e grupos pró Bolsonaro no WhatsApp. A Bolsonaro se depositou as esperanças da “figura ilibada, sem jaças, e que o combate à corrupção seria uma de suas metas. Ao final de seu mandato a nação se deparou com um governo repleto de acusações de corrupção, sendo o próprio ex-presidente um dos acusados. No caso dele, o de furto de dinheiro público (rachadinha) via a contratação de uma servidora fantasma. – o caso Wal do Açaí – à época que Bolsonaro era deputado federal. Assim como Jair Bolsonaro, tantos outros, mas podemos ainda citar Flávio Bolsonaro, acusado de lavagem de dinheiro e peculato, e Jair Renan Bolsonaro acusado de lavagem de dinheiro. ambos filhos do ex-presidente.

Para o sucesso da desinformação como instrumento da tomada do poder, é fundamental o controle total da informação. No caso dos nazistas isso se deu pela criação do Ministério da Propaganda sob a liderança de Joseph Goebbels, que censurou imprensa, queimou livros “não alemães” e usou rádio e cinema para glorificar Hitler.

Nos casos de Trump e Bolsonaro, o estrategista, com a mesma finalidade de Goebbels, foi Steve Bannon, um radical da extrema direita que fez parte da primeira administração Trump, e os veículos de desinformação foram o WhatsApp, o Telegram, o X e outros redes sociais.

Para que o ódio seja estimulado é necessário se fabricar Inimigos. Campanhas antissemitas associaram judeus a “ameaças bolcheviques” e “corrupção cultural”, justificando leis racistas como as de Nuremberg.

No discurso raivoso dos extremistas brasileiros, os inimigos eram e são os “comunistas fabricados” . Todos os adversários de Bolsonaro e críticos a ele são taxados de comunistas, sejam simpatizantes ou militantes do PT e de outros partidos, sejam jornalistas. Faz bem lembrar que até um general foi taxado pelo ex-presidente como “melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).

A extrema direita domina o uso das fake news e propaga teorias conspiratórias para criar crises artificiais e alimentar ressentimentos. O objetivo é criar um cenário de caos, onde a população busca “salvadores” autoritários.. Exemplos dessa forma de ação são as campanhas anticientíficas, questionando e demonizando o uso de vacinas, negando as mudanças climáticas, atacando os direitos LGBTQIA+ para gerar desconfiança no seio da sociedade. Outro recurso é o uso das plataformas digitais, amplificando conteúdos extremistas, criando “bolhas” onde fatos são substituídos por emoções. Difamar a imprensa como “inimiga do povo”, desacreditar fontes críticas e atacar jornalistas também são parte do modus operandi dos extremistas.

A extrema direita constrói a sua identidade política demonizando grupos minoritários e adversários, com o objetivo da divisão social e legitimação de políticas segregacionistas.. Essas táticas incluem associar imigrantes à violência ou minorias religiosas a “ameaças culturais”. Os extremistas usam termos como “invasão”, “traição” ou “degeneração” para incitar ódio. Difamar opositores como “corruptos” ou “comunistas”, mesmo sem provas.

Quanto a instrumentalização da fé, ele é um recurso poderoso de mobilização das bases conservadoras. No Brasil o uso de símbolos cristãos em campanhas eleitorais é usado para atrair eleitores evangélicos. As estratégias mais comuns são apresentar-se como “defensor da família tradicional” ou “guerreiro contra o aborto”, mesmo que políticas concretas não reflitam esses valores. Por outro lado, pastores ou sacerdotes endossam candidatos em troca de influência política e mesmo benesses como benefícios fiscais em relação à tributação das igrejas.

Lições Globais

É desafiador se opor a essa sistemática máquina de desinformação. Neutralizar essas sinistras e corruptas práticas requer muito esforço e foco. O enfrentamento ao discurso mentiroso e manipulador é fundamental. Afinal, a verdade é única. As narrativas podem ser várias.

O combate à desinformação no ambiente digital enfrenta um gigantesco desafio que é o das plataformas e veículos de comunicação, que deveriam expor mentiras de forma prioritária, se negarem ou se absterem de fazê-lo, sob a premissa da liberdade plena de expressão, uma falácia em qualquer sociedade civilizada e democrática. Esse aparente “zelo”, no entanto, não se aplica à esquerda, que frequentemente se vê cerceada na sua forma de se comunicar com a sociedade.

No Brasil, e em todo o ocidente, as principais mídias corporativas, de uma forma ou de outra, são cúmplices das campanhas de desinformação. Cita-se o embate do ministro Alexandre de Moraes versus X (Twitter), cujo dono é o radical de extrema direita Elon Musk. O alento é que no Brasil as mídias independentes tem alcançado cada vez mais espaço, e assim fazem um contraponto ao discurso manipulador e mentiroso, levando a verdade, ao silêncio covarde – e até a própria propagação de inverdades – promovida pela extrema direita, através das mídias corporativas, que pertencem, invariavelmente, a grandes grupos econômico-financeiros. Dentre os veículos de mídia independentes citamos Brasil 247, ICLNoticias, Carta Capital, Revista Fórum, Diário do Centro do Mundo e outros, como o blog Política em Debate.

    Enquanto a extrema direita avança com desinformação e manipulação emocional, progressistas e movimentos de esquerda enfrentam um desafio complexo: como combater mentiras sem recorrer a táticas semelhantes. A resposta não está em criar “fatos alternativos de esquerda”, mas em fortalecer a democracia por meio de transparência, educação e mobilização baseada em evidências.

    Na Europa dos anos 1930, coalizões de esquerda enfrentaram nazistas e fascistas com unidade programática e defesa das instituições democráticas, sem demonizar grupos étnicos ou fabricar mitos. Martin Luther King Jr. e grupos como o SNCC (Student Nonviolent Coordinating Committee, em português: Comitê Coordenador Estudantil Não-Violento) combateram o racismo estrutural com protestos visíveis e pacíficos, que contrastavam com a brutalidade policial. Fotografias de cães atacando manifestantes em Birmingham (1963) desmascararam a narrativa de “violência negra“.

    O dever de casa no projeto de oposição à desinformação e manipulação do cidadão começa desde cedo. As gerações mais novas são a esperança que esse cenário mude a médio/longo prazos. Projetos como o “Educamídia” (Brasil) ensina estudantes a identificar fake news e checar fontes.

    Há uma absoluta necessidade de se regular as redes sociais no Brasil. Essa regulação já é prática na Europa. A União Europeia (UE) tem regulado as redes sociais por meio de leis como o DSA (Digital Services Act) e a lei de mercados digitais. Essas leis estabelecem obrigações para as plataformas digitais, como a remoção de conteúdos ilegais e a proteção de menores de idade.  Regular não é censurar e nem pode ser. Mas sim exigir que as redes sociais priorizem conteúdos verificados, sem censurar opiniões divergentes.

    Infelizmente, as principais mídias sociais são de propriedade de americanos ligados, de uma forma ou de outra, ao governo de extrema direita do presidente Trump. Como é sabido, e já citado, o X é uma dessas mídias que, além de não combater a desinformação, é acusada de cercear a livre divulgação de perfis de esquerda, privilegiando a publicitação dos perfis da direita e da extrema direita. As moderações de mídias, como o tiktok, são castradoras e, em muitos casos, até censoras dos conteúdos de esquerda. A Meta, proprietária, dentre outros, do Facebook, é acusada de cercear, excluir, e não publicitar conteúdo de esquerda. Nosso blog teve alguns dos posts excluídos pelo Facebook recentemente, sem qualquer razão aparente, motivo pelo qual excluímos o nosso perfil da plataforma, por nos recusarmos a ser motivo de censura. Recentemente a Meta foi acusada de censura. Mark Zuckerberg, ‘grande defensor’ da liberdade de expressão, censurou um livro que denuncia a Meta. A obra de Sarah Wynn-Williams, ex-funcionária da empresa, detalha abusos éticos e casos de assédio sexual na big tech.

    É necessário dar rosto às vítimas de discursos de ódio. Denunciar. Não calar.

    Armadilhas a Evitar: O que não repetir

    A extrema direita colhe frutos rápidos com o ódio, mas a esquerda só vencerá se plantar sementes de confiança. Isso exige paciência histórica (já que reformas educacionais levam décadas para impactar a cultura política), coragem para não retaliar (resistir à tentação de usar bots ou deepfakes, mesmo sob provocação) e lembrar o essencial. Como disse Angela Davis, “não aceitamos o que não podemos mudar; mudamos o que não podemos aceitar”.

      A democracia não se salva com atalhos, mas com integridade. A extrema direita não vence eleições apenas com votos, mas com a corrosão da confiança nas instituições.

      Enquanto desinformação, difamação e manipulação religiosa forem usadas como armas, a democracia permanecerá vulnerável. A resposta não é o silêncio, mas a vigilância coletiva e a defesa intransigente da verdade.

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